RPM – Elektra (2011)

Às vezes os rótulos nos fazem cair em armadilhas, especialmente quando se trata de bandas de rock, palavra essa que compreende tantos estilos e frentes diferentes. Isso em seu estado puro, pois quando ocorrem flertes com o reggae, o ska e mesmo o forró (como o Raimundos fez no início dos anos 90), as possibilidades são quase infinitas. Por que então esperamos homogeneidade em um estilo flexível por natureza? O último trabalho do RPM, lançado em dezembro do ano passado, parece fortalecer a pergunta em nossas cabeças.

A trajetória do RPM é estranha, irregular e cercada de hiatos. Começou com os brilhantes “Revoluções Por Minuto” (1985) e “Rádio Pirata ao vivo” (1986), álbuns cujas vendagens levaram os garotos de classe média alta de São Paulo a um status de semideuses. Turnês com estádios lotados, entrevistas, gritos das fãs, desgastes, drogas, crise criativa, brigas. O ciclo de amizade quebrou. A banda lançou o irregular “Quatro Coiotes” (1988), e a resposta fria do público encerrou a trajetória em 1989.

O novo milênio trouxe um improvável novo capítulo para a trajetória. O grupo reuniu-se novamente para gravar um álbum ao vivo, lançado em 2002. Mas na hora de planejar um álbum inédito, de novo não houve sintonia. Em 2007 outra reunião para divulgação dos álbuns antigos remasterizados, mas sem turnês. Finalmente, em 2010 voltaram a conversar, encontraram um projeto em comum e mergulharam de novo na rotina turnês/álbuns.

De 1988 a 2011 são nada menos que 23 anos. Para onde ir? Retomar ao ponto de partida e correr o risco de soar datado, ou apresentar uma nova cara e dar a cara a tapa? A banda encontrou a sua solução para a segunda alternativa ao incorporar os elementos eletrônicos do presente. Elektra, assim, é de corpo e alma um álbum de música eletrônica com pitadas de rock, é assim que ele pede para ser visto. Daí a pergunta: por que sempre esperar o tradicional de um estilo tão diversificado?

Elektra dialoga com os outros dois estúdios da banda, mas mantém uma certa distância. Se naqueles dois dominava um instinto de rebeldia de jovens indignados com os tropeços do governo recém egresso da ditadura, aqui domina o espírito festeiro de alguém que atinge a meia-idade e agora está apenas disposto a celebrar. Paulo diz em “Muito Tudo”: “eu não tenho paciência pra política e poder. Eu não vou dizer mais nada se eu não sei o que dizer”.

Em termos de som, o álbum aposta em peso nos samples eletrônicos e teclados de Luís Schiavon, criando a base e os solos de praticamente todas as canções. Isso tem como consequência a presença discretíssima da guitarra de Fernando Deluqui. O segredo do RPM nos anos 80 parecia ser a química entre guitara e teclados. Aqui, Fernando sempre aparece bem, mas logo é engolido pela parede eletrônica.

O álbum tem como destaques a já citada “Muito Tudo”, a faixa-título, o sinistro country “Problema Seu”, a inspiradíssima “Cassino Royale”, a radiofônica “Crepúsculo”, a bonita “Deusa das Águas” e o primeiro single, “Dois Olhos Verdes”, típica faixa do RPM.

Os problemas ficam as faixas “Pessoa X” e “Santo Graal”, ambas pela mesma razão: as letras de Paulo Ricardo. Se outras faixas do álbum apresentam bonitas e até inspiradas linhas, aqui ele recorre a clichês como “hoje eu quero ser feliz, com você uma pessoa X” e “ela me pega e eu não consigo mais parar de dançar”. Por fim, o álbum parece ter um problema na ordem das canções, deixando diversas sensações de quebra ao longo de sua execução.

Elektra, assim, foi o primeiro passo para a conquista de novos fãs para uma banda que perdeu tempo demais enquanto resolvia os seus problemas internos. Esperemos os próximos passos para que fique mais claro que tipo de vôo o RPM terá.

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