Adeus, Chorão

Coincidência. Ontem mesmo conversava com um amigo sobre o Rock In Rio. Decepcionado com as atrações nacionais, que não apresentaram praticamente nenhuma novidade, comentei com ele que o Charlie Brown, com tantos hits por aí, poderia ser uma boa opção para o festival. Meu amigo comentou “pois é, mas, cara, o Chorão é um imbecil”. Concordei, e acrescentei “sim, meu caro, mas o que importa é o trabalho do bicho… E, velho, Charlie Brown é muito bom de cantar com os amigos bêbados”.

A conversa ilustra perfeitamente um quadro que, infelizmente, muitos ignorantes não se atentam. Ninguém tornou-se fã agora. Ninguém superdimensionou a banda. A perda da vida de um ser humano, seja ele quem for, deve ser lamentada todos os dias.

O caso de um músico, inclusive, leva à tona uma camada de sentimentos em comum. Não é preciso ter conhecido ou ao menos gostar da personalidade do cara. Mas muitos compraram os discos, decoraram as letras, curtiram as músicas que tocavam nas rádios. Já enviaram um trecho para a namorada, para amigos, se identificaram, foram a algum show ou conheciam alguém que gostava. A música gera proximidade, especialmente quando algum trecho diz respeito a algo que alguém já passou. O que não é tão difícil assim, pois todos somos humanos e experimentamos uma diversa gama de sentimentos quase que universais – amor, ódio, indiferença, amizade, paz, depressão, tristeza profunda. A voz que declama e canta dispensa o resto do corpo. A frase declamada invade os muros da insegurança e cria uma relação de intimidade, de convivência com o ouvinte, que agrega aquilo a momentos de euforia, identificação e diversão. A morte de um artista que admiramos ou que nos tornamos mais próximos é equivalente à perda de um colega, de uma pessoa que está sempre ali no nosso cotidiano, e de repente não está mais.

Goste ou não, o Charlie Brown Jr. foi talvez a única banda de rock que sobreviveu à tendência importadora das rádios atuais. “Senhor do Tempo”, “Lutar Pelo Que É Meu”, “Me Encontra” e muitas outras disputavam espaço com Beyoncè, Bieber, Katy Perry e muitos outros. Não foi a melhor banda de sua geração, mas tem uma quantidade de hits impressionante e, sem dúvida, foi uma das poucas grandes da fraca última década. É algo a se respeitar.

Tive ótimos momentos com as músicas de Chorão e cia. “Bocas Ordinárias” (2002), assim como pra muitos, invadia qualquer rodinha de violão entre amigos. Ouvi o Acústico Mtv deles até o disco estragar (até hoje acho o acústico deles, junto com o do Capital Inicial, um dos mais belos e bem produzidos da série). Depois cansei, conheci outras coisas, e as canções ficaram ali no canto. Mas sempre que tocava na rádio, não mudava a estação. Quase comprei o último disco “Música Popular Caiçara” (2012), inclusive.

Perdemos mais um. Claro, todos vão embora. Mas é triste quando quem vai ainda é jovem e cheio de coisa a oferecer. Canções que não serão mais escritas, shows que não serão mais organizados. E, claro, o buraco enorme que se abriu no coração das pessoas com os quais ele convivia. Adeus Chorão, e obrigado pelas músicas. Você deixou saudades. Que você encontre a paz que, aparentemente, não teve aqui. Pois o homem quando está em paz não quer guerra com ninguém.

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