Barão Vermelho em Brasília (23/02/2013)

Não existe nostalgia na música, a não ser pelos efeitos que ela suscita na forma de lembranças, aromas e sabores. Elementos por demais novos podem sofrer com a rejeição ou a animosidade de seus receptores, que anseiam por um refrão conhecido, uma linha com a qual se identifica. Quanto mais velha a canção, melhor a sua aceitação pelo receptor. E, em um contexto onde se questiona bastante a relevância da produção atual, chega a ser até natural o desdobramento para as canções seguras.

Era esse o sentimento que tomava conta dos rostos e expressões que encontrei no Opera Hall, péssima casa de shows que têm sido cada vez mais utilizada por promotores ávidos em fornecer lotação esgotada. Isso até  acontece, mas a péssima estrutura do local retêm uma ilha de calor, e não é raro ver pessoas passando mal mesmo com uma pista com espaços para se locomover. Apesar do local, foi acertada a decisão de acabar com a abominável pista vip, que infelizmente só serve para extorquir os fãs. Sem a divisão sectária para lucrar mais, quem era fã casca dura pôde acompanhar bem de perto.

O Barão Vermelho decidiu se reunir mais uma vez para uma turnê comemorativa do primeiro disco de carreira em uma turnê curta de seis meses. Naturalmente, pelo peso da banda apontada pror muita gente séria como uma das quatro grandes do rock nacional (ao lado de Legião, Titãs e Paralamas do Sucesso), deu uma dimensão maior á turnê, adicionando mais datas e mesmo aumentando a sua extensão.

Mas o que torna o Barão Vermelho diferente? Os cariocas sempre foram muito respeitados por, no entender de muita gente, ser a única banda tipicamente de rock entre as maiores. Se a Legião era guiada pelos versos raivosos e melancólicos de Renato Russo, e os Titãs e Paralamas marcados pela salada musical, agregando diversos ritmos e influências, o Barão é aquela banda que você espera um riff rasgado de guitarra, solos, baixo pulsante e voz à serviço do som. É a guitarra que orienta o som do Barão Vermelho, o que não lhes impediu de explorar outras facetas em seu som. O show, por fim, não poderia apenas celebrar o primeiro disco, tornando-se mais uma celebração a uma obra que é fortíssima.

Outra coia tocante é a maneira com a qual o Barão encara o seu passado, que responde por um nome – Cazuza. É inevitável que os hits na voz do falecido cantor sejam as mais celebradas e cantadas, mas o show não cai mesmo com uma sequência de clássicos obscuros do Barão. É interessante perceber que, apesar dos inúmeros hits de rádio, a maior parte do show do Barão se consagrou pelos shows. Pela insistência da banda, pelo boca-a-boca, pela cultura de trocas de fitas e com garotos com seus violões. O tributo à Cazuza sempre esteve lá, mas não atrapalha o caráter e celebração. Afinal, desde o sucesso estrondoso de “Pense e Dance” (1988) que o Barão é mais do que seus primeiros álbuns.

A dinâmica da banda entre si e com o público – fanático, cantando todas as canções – é a melhor possível. Frejat desenvolveu por demais sua postura e presença de palco, mas consegue se impor sem roubar a atenção excessivamente pra si mesmo. Fernando Magalhães e Rodrigo Santos andam por todo o palco olhando para seus fãs e com um estilo de tocar que não abandona a humildade em prol do egocentrismo tão tipicamente (e lamentavelmente) repetido no rock. A comissão de trás é mais discreta – Maurício Barros some atrás de seu kit de teclados, Goffi toca bateria como se estivesse pescando e Peninha, grande figura, diverte com seus diversos instrumentos percussivos (embora é outro que, infelizmente, acaba desaparecendo em meio à parede de guitarras).

O show passou rápido, como se ingeríssemos de uma vez uma bebida esfumaçante e altamente picante. Alimentando um público ávido por um pouco de rock’n roll da maneira tradicional – ou, como outros dizem, da maneira que se deve fazer – o Barão deixa Brasília – e deixará a turnê – plenamente ciente não apenas da sua importância na música brasileira, mas também sabendo que podem-se reunir de tempos em tempos sempre que desejarem. Afinal, se as canções não envelhecem, o público sempre se renova.

SET-LIST

1. Por Que a Gente é Assim?
2. Ponto Fraco
3. Pense e Dance
4. Cuidado
5. Menina Mimada
6. Billy Negão
7. Carne de Pescoço
8. Meus Bons Amigos
9. Política Voz / Tão Longe de Tudo
10. Por Você
11. O Poeta Está Vivo
12. Bilhetinho Azul
13. Sorte e Azar
14. Pedra, Flor e Espinho
15. Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Erasmo Carlos Cover)
16. Bete Balanço / A Chave da Porta da Frente
17. Puro Êxtase
18. Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto – (Legião Urbana Cover)
19. Declare Guerra
20. Maior Abandonado
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21. Down em Mim
22. O Tempo Não Pára (Cazuza Cover)
23. Tente Outra Vez (Raul Seixas Cover)
24. Pro Dia Nascer Feliz
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25. Codinome Beija-Flor
26. (I Can’t Get No) Satisfaction (The Rolling Stones Cover)

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