Sertanejo Universitário

O sertanejo é um estilo que me fascina. Amado por uns e odiado por outros, sua absorção pelo seu público varia entre a clássica “dor de cotovelo” e o uso de refrões chicletes feitos para pista de dança. Como qualquer estilo que se torna popular, atrai pra si uma onda de ódio e de críticas de um setor que exerce sua predileção pelo secreto, underground. É quase como se fosse um grande pecado algum estilo ou banda fazer sucesso, como se qualidade fosse algo inversamente proporcional à exposição. O objetivo desse texto é chamar a atenção para os caminhos que o sertanejo têm percorrido, pois o autor acredita piamente que estamos atravessando um grande período de transição da música sertaneja. Afinal, há uma enorme diferença entre João Paulo e Daniel e Gusttavo Lima.

A primeira verdade claramente perceptível é que o sertanejo passou por uma transformação semelhante a da MPB, passando a incluir diversos segmentos e se afastando do seu conceito original. Afinal, se hoje alguém considera Seu Jorge MPB, é prova de que o estilo se distanciou bastante da bossa nova. Mesmo o caráter elitizador da bossa nova hoje já não é uma característica marcante. é verdade que o tamanho do texto (e a falta de conhecimento do autor) tornam as superficialidades inevitáveis, mas o sertanejo passa pela mesma questão. Surgida nos sertões da música caipira, o gênero se distanciou cada vez mais das fazendas e propriedades rurais pra ganhar o espaço urbano, além de rejuvenescer o público.

luansantana (1)Esse processo de transição certamente iniciou com o Boom das duplas sertanejas dos anos 90, que empurraram o rock e a MPB para o final da fila das canções de rádio, deixando o estilo consolidado nas frequências AM e FM. Zezé di Camargo e Luciano, João Paulo e Daniel, Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e companhia foram os responsáveis pela aproximação do sertanejo com o forró, sem promover, contudo, grande distanciamento da música caipira. Os temas passam pelas desilusões amorosas (nas baladas) e nas festas, bebida e mulheres (canções mais animadas). Solos de guitarra e sanfonas faziam bases para dois moços, em geral com um tendo mais destaque que o outro. Menos destaque, contudo, não foi suficiente pra driblar a comoção pelas mortes de João Paulo e Leandro. o curioso é que hoje, essa geração se divide entre dois grupos: 1. os que tem um final de carreira meia melancólica, sem emplacar canções nas rádios (embora ainda possuem muita força fora dos centros urbanos), e talvez Leonardo seja o grande exemplo disso. 2. as duplas que descobriram um grande nicho para se apresentar nos dias de hoje, a classe AA – Zezé e Luciano, Chitãozinho e Xororó são os representantes desse lado.

Desde então, tem acontecido um fenômeno de “popzação” do sertanejo. Os vícios da indústria estrangeira foram rapidamente absorvidos pelo lado daqui: sucessos meteóricos que revelam um grande nome, que dificilmente emplaca outro sucesso, pois deve rapidamente ceder lugar para a próxima grande revelação. Muito se falou da denominação “sertanejo universitário” se referir às letras mais intelectuais, quando talvez o nome tenha vindo pelo fato de que, dessa vez, o público é cada vez mais jovem. E jovens pedem refrões-chiclete, e quem os dá ganha grande exposição e status até conseguir se manter. Considero até hoje Victor e Léo uma espécie de aberração, com suas canções mais melódicas, quase como se fossem estrangeiros em um lugar que não lhes pertence. Sempre tive a impressão de que Victor e Léo explodiram no tempo errado, pois a ventania balança para outros lados.

Outro aspecto é que, agora, nunca o indivíduo foi tão tratado como estrela. Se nos anos 90 e mesmo no início dos 2000 o foco era mais na música, agora não é nenhum absurdo que alguém tenha ouvido o nome “Gusttavo Lima” antes de “Balada Boa”. os temas de amor e festa continuam, mas tudo agora é voltado para o ritmo, a melodia, abandonando totalmente o cadeciamento tão comum nos anos 90 e na música caipira tradicional.

O início do texto falava de uma transição vigente: qual seria? Assim como no pop internacional, a coisa esbarra em um grande problema: a referência. Se não dá pra saber se Luan Santana ou Gusttavo Lima ainda estarão por aí em 10 anos (não pela questão da qualidade, argumento imbecil, mas pela questão da característica do mercado hoje), também é difícil saber se esse pipocamento de nomes no final não será cansativo. Afinal, a história da música nos mostra que muitas vezes a inovação vem de quem menos se espera, vêm de quem poderia se acomodar. Ou será que os Beatles tinham necessidade de criar seus últimos álbuns na forma que criaram? Talvez o U2 não precisasse ter se arriscado tanto em “Achtung Baby” (1991). É difícil esperar inovação em um nome novo que, para crescer na carreira, precisa entregar o que o público que no momento. Talvez apenas um nome que já tenha certa trajetória seja capaz de entregar o que o público vai querer lá na frente. Esses nomes atuais que levam 60.000 pessoas a seu show podem liderar os rumos do sertanejo? Pode ser que sim. Ou, assim como já acontece com outros gêneros, teremos tudo aqui para ter um grande limbo.

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