“Saturno”, Capital Inicial (2012)

Recentemente, um considerável conjunto de bandas nacionais têm trabalhado os seus trinta anos (seja de formação ou de lançamento do primeiro disco) de forma festiva. O Kid Abelha gravou um disco ao vivo, os Titãs celebraram seu álbum mais emblemático, o Barão Vermelho vêm fazendo alguns shows ocasionais, os Paralamas já organizam sua turnê festiva no ano que vem. Celebrações que buscam evidenciar o conjunto da obra, com hits que sem dúvida fizeram e fazem parte do imaginário coletivo brasileiro. É evidente que não há uma forma certa de promover turnês festivas ou datas notórias, mas o Capital Inicial – que também completa seus 30 anos em 2012 – optou pelo avesso às celebrações e pelo planejamento do seu presente e futuro com um disco inédito – “Saturno”. Trabalhado do meio do ano para cá, em uma velocidade pouco frequente por aí, Saturno tem a intenção de colocar o Capital Inicial nos trilhos do futuro: a melhor celebração é aquela que evidencia o agora.

Contudo, o passado não é negligenciado por “Saturno”, muito pelo contrário. Sempre atento à preservação do legado do Aborto Elétrico, banda da qual Capital Inicial e Legião Urbana montaram suas bases, o Capital vêm tentando migrar esse aspecto dos shows para os seus discos de estúdio. O olhar é voltado para o presente, mas é o passado que dá o referencial, na forma de canções agressivas, políticas, com poucos acordes e a atitude punk do “do it yourself” (faça você mesmo) que tanto caracterizou aquele grupo. Têm sido essa a visão que fez com que o Capital aos poucos implantasse uma espécie de transição entre seus álbuns. Vê-se pouco aqui, por exemplo, de “Eu Nunca Disse Adeus” (2007), um tropeço do Capital que aparentemente têm servido como um catalizador para essa mudança. Vê-se muito aqui de “Das Kapital” (2010), o ótimo disco anterior que indicou um rumo menos pop e mais agressivo. “Saturno” tem sido abordado nas entrevistas do grupo como uma espécie de continuação daquele, porém mais agressivo. E o ouvinte acaba por ter a mesma percepção.

O álbum dita o tom já na ótima faixa de abertura “O Bem, O mal e o Indiferente”, com uma espécie de lullaby introduzindo um conjunto de guitarras altas e um riff bastante agressivo, embora possa soar mediano para qualquer fã de heavy metal. Contudo, não é intenção do Capital Inicial em “Saturno” aproximar seu rock do metal. Talvez com a exceção da abertura e de “Valsa no Inferno”, a agressividade vem na forma de uma guitarra presente e temas mais políticos e rebeldes.

Há poucas baladas, mas elas vêm em lugares estratégicos. “O Lado Escuro da Lua”, primeiro single do disco que têm tocado por aí, serve como um breve descanso providencial para as duas primeiras canções, logo interrompido pelo hino quase anarquista “Saquear Brasília”, canção que com certeza deve integrar a parte mais política dos shows do Capital. “Saturno” talvez seja a canção mais diferente do disco – e provavelmente a melhor do mesmo -, com seu ritmo lento a lá “Olhos Vermelhos”, pérola do excelente “Rosas e Vinho Tinto” (2002). “Sol Entre Nuvens” encerra o disco, num clássico recurso de trazer o ouvinte de “volta ao mundo real”, evitando aquela confusão mental quando o disco encerra com uma canção pesada.

O álbum, contudo, parece dar sinais de cansaço em sua proposta nas faixas finais, emendando uma sonoridade mais próxima da última década da banda, caso de “Noites Em Branco”, que se encaixaria bem no disco “Gigante” (2004). Contudo, esse momento do álbum também reserva agradáveis surpresas, como em “Poucas Horas”, uma das melhores canções do tipo “emocional” gravadas pelo Capital há um bom tempo. Esses momentos garantem a execução do disco até o final.

No quesito instrumental, vale destacar a ótima performance de Flávio Lemos e suas consistentes linhas de baixo que dão peso e volume às canções. O guitarrista Yves, no entanto, parece estar numa espécie de zona de conforto, pois seus solos e riffs não são tão diferentes dos que já vimos antes. O baterista Flávio Lemos é discreto e não compromete e Dinho Ouro Preto – que na minha opinião parece ser injustamente subestimado – convence quando precisa passar determinada emoção.

Por essas razões, “Saturno” deve agradar bastante a quem gosta do Capital mais agressivo, e certamente deve encher os shows com suas canções (a banda inclusive considera tocá-lo inteiro). É também um caminho digno para uma banda que não nega o peso dos anos, mas que não se vê no hall dos veteranos e pensa que ainda tem muito a oferecer.

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