“Sem Crise”, Gabriel o Pensador (2012)

A construção textual possui um ritmo e uma força em alguns artistas, em um mundo em que, muitas vezes, quem deveria ditar os rumos seriam as próprias notas. Na tentativa de adentrar em um mundo que, a princípio não é dela, as palavras vão se organizando em sequências de linhas melódicas entonadas por vozes que ganham várias classificações: barítono, agudo, etc. Chega um ponto em que a classificação é a menos importante: rap, eletrônica, pop, samba, ou o que for. Só nos resta a celebração entre notas que traduzem sentimentos e palavras que enevoam diversos temas, e a combinação de ambos é a que dá tônica emoção. Não é a toa que a música instrumental é apenas um entre vários outros segmentos musicais, e se destaca exatamente pelo seu caráter de excepcionalidade.

É esse o sentimento que, na faixa mais emocionante do disco, Gabriel busca capturar quando declara seu amor à escrita a um policial desconfiado: “tem gente que escreve por ego, ou só pra fazer firula. Meu texto é simples, é sincero. É tinta que sai da medula. Eu chuto as palavras pra fora e é elas que vem me buscar. Como num jogo de bola e gandula”. O elemento musical mais afiado de sua música é a letra, e é a ela que Gabriel conseguiu fazer a talvez melhor canção de toda a sua carreira. O disco já vale a pena apenas por ela.

Conhecido no Brasil todo a partir de “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, canção que veio na esteira com a insatisfação gerada pelo impeachment de Collor e à inflação que a sucedeu, Gabriel fez tanto sucesso como polêmicas. Seus dois maiores hits geram controvérsias até hoje, sendo um a legalização (“Cachimbo Da Paz”) e outra a futilidade feminina (“Lôraburra”). Ao mesmo tempo, seu lado “pensador” caiu no gosto de diversos segmentos ávidos por canções que explorassem a situação social do país, como “Dança do Desempregado”, “Até Quando”, “Se Liga aí”, “O Resto do mundo”. Para fechar a trindade, sua discografia é cheia de canções que tiram sarro de situações do cotidiano da classe média, ou que abordam o desejo sexual masculino, como “Retrato de Um Playboy” e “2345meia78”. Para quem não conhece o Pensador, tá aí uma boa seleção que ajuda a definir sua música.

Sete anos separa esse disco dos demais, em um interlúdio em que um Gabriel desiludido com divórcio e uma nova rotina com os filhos fez com que ele se envolvesse em diversos projetos além da música (considerando que sua ex-mulher cantava em sua banda, é compreensível seu afastamento). Seu retorno foi desenhado aos poucos, com algumas canções divulgadas antes e só agora reunidas a outras em um disco. Caso de “Nunca Serão” e “Linhas Tortas”. Em certa forma, isso atrapalha o disco, pois ambas possuem um contexto de certa forma datado (afinal, já tem certo tempo que os bordões de Capitão Nascimento não aparecem por aí). Mas o problema fica na questão temática apenas, pois ambas se sustentam bastante bem na trama desenhada pelo disco.

Esperto, Gabriel mais uma vez consegue evitar as armadilhas que muitos cantores de rap, e entrega diversas linhas melódicas. Apesar das letras gigantescas, o ritmo cantado e o caminho que a música toma passa longe de dar a impressão de “mais um rap”, o que dá frescor ao disco. A caneta continua afiada, é incrível como Gabriel brinca com as letras, como na sequência de palavras com “F” em “Foi Não Foi”, ou toda a letra de “Boca com Boca”.

O álbum conta com participações especiais que ajudam a engrandecer o disco. É impossível não se empolgar com Jorge Ben-Jor, e a pequena homenagem feita a ele em “Surfista Solitário”. Rogério Flausino canta um refrão cheio de efeitos na voz em “Brilho Cego”, e Carlinhos Brown em “Pimenta e Sal”. Adicione isso às vozes femininas em “Homem Não presta”, “Deixa Quieto” e “Tudo Certo”, e há um bom leque de vozes para um artista solo.

No quesito musical, o álbum transita entre o soft-funk de “Surfista Solitário”, a MPB eletrônica de “Brilho Cego” e as fórmulas tradicionais de hip hop. Muitos trechos geram certa estranheza ao ouvinte, como se o álbum se esforçasse para agradar a todos.

Por fim, deve-se ressaltar o excesso de faixas. Em um disco de 15 canções, é inevitável comparar umas com as outras, criando assim um certo favoritismo a umas e indiferença a outras, isso sem contar na longa duração que afasta o ouvinte das últimas faixas.

“Sem Crise” consegue saciar a sede dos fãs do cara responsável pela popularização do rap nos anos 90 e oferecer um bom leque de opções à discografia de Gabriel. Cabe às 12 canções que chegaram agora lutar pelo seu lugar em um álbum com tantas faixas e opções diferentes aos ouvidos.

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