Herbert Vianna – Victoria (2012)

Álbuns solos costumam ser vistos em geral com certa desconfiança. Muitas vezes fruto de uma pretensão não só artística como comercial, a empreitada solo é visto como uma plataforma que permita vôos sem banda ou alguém para dividir o nome. Isso acaba fazendo com que certos trabalhos apresentem uma sonoridade muito parecida com a que fazia com sua banda ou simplesmente irrelevante. Conto nos dedos as empreitadas solo que vejo como realmente necessárias e, felizmente, os lançamentos de final de ano deram mais um belo exemplar desse tipo de caminhada.

Avesso à exposição de sua figura, Herbert Vianna nunca fez muita questão de promover seus álbuns solo (tanto que Victoria foi lançado pelo desconhecido selo “Oi Música” e sequer possui um single). Seus agora quatro álbuns sempre chamaram a atenção por apresentar uma sonoridade bastante distinta dos Paralamas, mais acústica. Muitos experimentos serviram de base para canções mais tarde regravadas pelos Paralamas com arranjos distintos (caso de “O Rio Severino”, canção acústica que veio aos Paralamas como um poderoso rock). Também há o caminho contrário, como “Dos Margaritas” e seu arranjo acústico blues totalmente distinta da versão de “Severino” (1994).

Os álbuns solo de Vianna, portanto, servem como um laboratório para o próprio artista e, para o ouvinte, como um testemunho do quão bom músico e diversificado Vianna pode ser. Nisso “Victoria”, recém-saído da forma, não é diferente. Aqui Herbert regrava um repertório escrito por ele que ficou famoso na voz de outros artistas. “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim” (Ivete Sangalo), “Nada Por Mim” (Kid Abelha) e “Quando Você Não Está Aqui” (Maria Bethânia) é alguns desses exemplos que mostram um artista que não só contribui como frontman dos Paralamas como também tem uma marca espalhada por aí.

Talvez por essa razão que “Victoria” pede para não ser visto como um simples álbum. Mesmo que poucas faixas ultrapassem a marca de 3 minutos, é cansativo ouvir as vinte faixas considerando-as como um repertório de álbum. “Victoria” é melhor apreciado pelo ouvinte atento que gosta de estudar (seja com o instrumento na mão ou simplesmente com o ouvido) os arranjos. Todas as canções são à base voz/violão, com um Herbert raras vezes aumentando o tom de voz, com alguma percussão aqui e uma guitarra acolá. A quase ausência de mixagem dá ao som uma inconfundível sensação caseira, como se o próprio estivesse tocando ali do lado da sala.

Por se focar nos arranjos, Herbert tira licença poética para interpretar as canções de outra maneira, muitas vezes alterando melodias e climas das canções. Alguns resultados são inspirados como o de “A Lua Que Eu Te Dei”, gravada pela Ivete em uma versão intensa, e aqui bem mais relaxada. “Mulher Sem Nome” apresenta um clima de tensão que dá tons estranhos ao álbum, mas que logo desaparece após algumas faixas (o que é uma pena, pois daria uma substância bastante interessante a algumas faixas). “Vem Pra Mim”, gravada pelo RPM, usa sintetizadores, vocal falado a lá Lou Reed e um clima sombrio.

Mas nem tudo é experimentalismo e, em algumas faixas, Herbert só se deu ao trabalho de criar um arranjo com seu violão. Caso da já citada “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim”, “Só Pra Te Mostrar”, “Nada Por Mim”, entre outras. “Um Amor, um Lugar” – na minha opinião uma das canções mais lindas de toda a trajetória do cantor – também traz sua melodia inconfundível, o que dá um alívio. “Victória” experimenta quando pode, às vezes até menos do que deveria. Mas mantém intocado o que deve ficar.

Os pontos negativos são o número de faixas, embora já tenha ficado registrado que o álbum pede tratamento diferenciado. Fica difícil para o ouvinte normal, em tempos imediatistas do MP3, ficar até a vigésima música de um álbum todo em voz/violão. Muitas vezes também o tom de Herbert fica muito baixo, quase não há variações de altura na voz depois da oitava faixa. Por fim, algumas versões poderiam ter sido um pouco mais trabalhadas, caso de “Nada Por Mim”, toda cantada sobre um coral de vozes que, mesmo com apenas 1 minuto e pouco de duração, é irritante.

“Victoria”, por fim, se pauta em reinterpretar canções pop que fizeram sucesso em algum ponto dos últimos 30 anos sem necessariamente se pautar pelo aspecto mais pop. O final dos trabalhos também deixa o cantor livre para planejar mais um álbum dos Paralamas do Sucesso e sua turnê de 30 anos, já planejada financeiramente via Lei Rouanet.

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