“Esse Cara Sou Eu”, Roberto Carlos (2012)

Têm sido lugar comum nos últimos tempos dizer que Roberto Carlos é permanentemente sustentado pela rede globo, que promove uma publicidade gratuita em todos os anos mesmo sem Roberto apresentar nada palatável. “Esse Cara Sou Eu”, um EP de 4 músicas, tem como objetivo questionar não somente essa argumentação como também questionar o lugar de Roberto nos dias de hoje. Seu discurso ultra-romântico, personificando a mulher como um ser intocável, feminina e de beleza inabalável – fazendo dela uma benção para o homem que deve cuidar dela para não perdê-la, soa quase anacrônico, especialmente entre os jovens e suas opções de relacionamentos cada vez mais diversificadas. Roberto ainda têm abertura nesse público? O que o sustenta? A resposta ainda está no ar, mas sem dúvida os fatos estão aí: “Esse Cara Sou Eu” não apenas emplacou sua música-título como foi seu primeiro disco a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias em mais de 20 anos.

Há mais uma coisa: finalmente Roberto Carlos entrega ao público um material que tem razão para existir e que consegue dar um certo frescor à sua música. Responsável pela popularização da Jovem guarda nos anos 60 e de discos antológicos como “O Inimitável” (1968), “Roberto Carlos” (1971) e “Roberto Carlos” (1977), Roberto passou a lançar uma série de trabalhos questionáveis após o ótimo “Amor Sem Limite” (2000). Discos de homenagens desnecessárias e suspeitas como “Emoções Sertanejas” (2010), “Elas Cantam” (2009) se juntaram a outros decepcionantes como “Roberto Carlos” (2005). “Esse Cara Sou Eu” se desvia dos obstáculos que os outros trabalhos sofreram e mostra um Roberto mais disposto a buscar abordagens diferentes de declamar seu amor à figura romântica da mulher. Ao mesmo tempo, a decisão de lançar um EP não só facilitou a divulgação das canções, que inundam as salas de estar todos os dias durante a novela, como também tornou possível o barateamento do material. É o velho Roberto entrando nos novos tempos.

O EP começa com “Esse Cara Sou Eu”, canção permeada por precisos teclados e frases de guitarra, dando suporte a um Roberto que vai declamando as qualidades do homem ideal. A canção parece se dividir em pequenas seções, pequenas pílulas que vão se tornando mais intensas a cada “esse cara sou eu” repetindo. A sensação de quebra dá um frescor à canção, prendendo a atenção.

“Furdúncio” é a grande surpresa. Iniciando com programações eletrônicas, a canção têm como pano de fundo para a suave voz de Roberto uma estrutura funkeada pontuada por uma base ritmada no violão. O resultado é uma combinação – pásmem! – dançante e jovem, flertando com o funk carioca e também com o lado mais pop dos anos 90 de Roberto. “Furdúncio” ganha o mérito de chamar a atenção do público jovem pelo ritmo e ao mesmo tempo suavizar os ouvidos das milhões de senhoras que passaram suas vidas inteiras ouvindo declarações incessantes de amor.

Só na outra parte que o EP decepciona. Ainda que reúne dois dos melhores momentos do cantor na década que se passou, não machucaria apresentar versões um pouco diferentes de canções já consumidas.

Por essas e outras razões, “Esse Cara Sou Eu” dá frescor ao discurso de Roberto e ao mesmo tempo ensina que não é porque todo ano têm especial de final de ano e música na novela (que, inclusive, têm enfrentado uma crise de audiência) que Roberto têm tudo garantido. O preço mais barato sem dúvida facilita, mas ainda é impressionante a força que Roberto ainda tem. Se é com EP’s que ele mostra seu melhor, então que eles continuem.

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