“Roadie – A Minha Vida Na Estrada Com o Coldplay”, Matt McGinn

Em maio de 2001, em um bar qualquer de Boston, Matt McGinn se encontrava tomando algumas bebidas com integrantes de uma banda que havia feito sucesso razoável na Inglaterra com o seu disco de estréia. Cansados da longa viagem e assustados com o gigante mercado americano, com suas inúmeras praças, muitos estavam ali pensando o que deviam fazer para ter sucesso em uma empreitada que tantas outras bandas falharam. Menos o vocalista do grupo, que vestia enormes óculos escuros e que, após avistar bandeiras americanas no aeroporto, sofreu um súbito de auto-confiança. De forma enigmática, Chris Martin esperou todos brindarem para anunciar o que hoje pode ser tido como uma profecia: “Bem pessoal, andei pensando. Podemos nos dar muito bem nesse país, sabiam?”. McGinn, impassível, pensou: “puta merda, ele está falando sério”.

“Roadie – A Minha Vida na Estrada Com o Coldplay” (editora Lafonte), à primeira vista, parece tentar assumir a tarefa ousada de testemunhar a trajetória do Coldplay, talvez a maior banda atualmente em termos de sucesso comercial, relevância e arrecadação. Ousada porque não falamos da história de um grupo que já passou da metade de sua vida, como outras com as quais 90% dos livros se ocupam. O bonde está andando ainda, e é difícil de imaginar até onde o Coldplay ainda pode chegar (ou naufragar). Mas, apesar de em certa parte cumprir esse objetivo, o foco do livro é outro. Matt dedica a maior parte das suas páginas em descrever o papel dos roadies, aquelas pessoas que correm de um lado pro outro nos palcos enquanto aguentam a impaciência dos fãs e a tensão de se certificar de que todos os equipamentos instalados funcionarão durante o show. Esse ser quase invisível, e por vezes bastante subestimado, é colocado aqui como o elemento determinante para o bom funcionamento de qualquer turnê, seja ela grande ou não. Assim, “Roadie” abre as portas não só para o fã de Coldplay, mas também para qualquer interessado na logística e funcionamento de uma excursão, do ponto de vista do “operário”.

O texto possui uma estrutura falada, com gírias, expressões e palavrões que, como atesta o narrador, fazem parte do seu cotidiano, o que torna o texto leve, fácil de ler e até engraçado, o que faz com que o leitor de cara já sinta simpatia com o carismático autor. Guitarrista nos anos 90, McGinn passou por várias bandas do underground londrino e chegou a sentir o sabor do sucesso pequeno com a banda Rosita, banda da qual era o baixista. As dificuldades financeiras, a idade avançada e o volume de contas o fizeram desistir da carreira musical e, desiludido, passou a cortar a grama de vizinhos para ganhar alguns trocados. Convidado por um amigo para ajudá-lo na montagem de palco de uma banda underground, McGinn se redescobriu no ambiente da música, aprendeu com as micro-experiências e, mais uma vez à convite do mesmo amigo, substituiu um colega roadie em uma viagem do então iniciante Coldplay.

A primeira música que McGinn ouviu a banda tocar foi “Yellow”, seguida de “Trouble”, e seu encantamento com as canções fez com que se aproximasse dos integrantes. Algumas bebidas e bicos depois, McGinn embarcou na turnê de “Parachutes” como técnico de guitarra.

Após o glorioso Glastonbury de 2002, o livro abandona a abordagem cronológica e começa a explorar temáticas, o que dá ao livro um caráter rico especialmente quando se ocupa mais de sua profissão. Em “Dia de Show”, o autor relata passo-a-passo a jornada de um exaustivo trabalho que começa às dez da manhã e que só se encerra perto das duas ou três da manhã, para recomeçar no dia seguinte, e no dia seguinte, e assim por uma turnê inteira. A linguagem simples do texto contrasta com o conhecimento técnico sofisticado, e afinações, guitarras, pedais, PA’s e equipamentos em geral são descritos minimamente, mas com o mérito de não tornar a leitura cansativa. Acontecimentos unusuais também são relatados no mesmo tom, como o dia em que McGinn salvou um colega roadie da morte certa, ou quando uma garota se escondeu dentro do ônibus da turnê, ou quando um roadie foi esquecido no meio do nada e precisou atravessar os Estados Unidos sem nenhum dinheiro no bolso a tempo de trabalhar no próximo show. E também o dia em que flertou com Kylie Minogue. E também quando um dono de uma loja viu Chris Martin chegar em seu estabelecimento para comprar o seu pior piano.

McGuinn, contudo, sabe que há fãs do Coldplay do outro lado, e decide agradá-los descrevendo brigas, histórias cotidianas e sessões de gravação. Contratado como Roadie de estúdio em 2004, McGuin dedica várias páginas sobre as sessões de “X&Y”, descritas como complicadas e traumáticas (ao contrário de “Viva La Vida”, descritas em pouquíssimas páginas como tranquilas), com a banda rumando de estúdio em estúdio buscando inspiração e até momentos desesperados, como quando um desesperado Chris Martin murmurava que o álbum estava uma “merda” e que havia poucas semanas. McGuin sustenta com orgulho o fato de que “Square One” possui um riff criado por ele mesmo, e que a partir dali as coisas voltaram a fluir. A curiosidade dos fãs também é atiçada quando McGuinn afirma que “Fix You” e “Viva La Vida” quase foram descartadas, ou quando todo mundo se regojizou quando Guy entregou a linha de baixo de “Speed of Sound”, dando à canção a pulsão tão marcante que lhe é característica.

Roadie também propõe uma discussão conceitual sobre o Roadie. Desvalorizado pela indústria e por muitas bandas, muitos preferem ser chamados de “técnicos de palco”, entendendo assim que se desviam de qualquer conotação negativa. Outros são músicos frustrados e “sentem inveja de seus patrões”, ou simplesmente não suportam o som da banda para quem trabalham, e sofrem por não poderem fazer outra coisa por precisarem do dinheiro. Adicione a esse tempero poucas horas de sono, viagens estressantes e a saudade da família e amigos, e temos uma profissão extremamente difícil e complicada, capaz de carregar dramas que passam longe dos olhos dos fãs de música. Considerando-se sortudo por ter a que chama de “melhor profissão do mundo”, Matt se esquiva dos “roadies frustrados”, escrevendo como ele contorna esses problemas para aproveitar ao máximo a experiência que estádios e mais estádios lotados podem oferecer.

Essa é a principal herança do livro de Matt McGuinn: trazer para a superfície o que fica por baixo das luzes: dramas, conflitos, poucas horas de sono, empolgação, catarse. é difícil embarcar numa turnê, mas a diversão que ela pode propiciar, como McGuinn afirma o tempo todo, não se encontra em outro lugar. É a partir de histórias de caras que se arriscam o tempo todo que uma banda consegue lotar estádios e colocar o seu pé na história. O livro de McGuinn é uma homenagem a esses funcionários. E, claro, há um pouquinho de Coldplay também.

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