Bon Jovi – Keep The Faith (1992)

 

Os anos 80 representaram para o Bon Jovi um período de duas faces: a enorme exposição fez com que a banda lotasse dezenas de estádios em grandes turnês. A enorme exposição também destruiu o psicológico dos integrantes, mergulhados em uma rotina de anos de shows, promoções, composições sem nenhum descanso. A crise foi tão grande que, ao final da “New Jersey Sindicate Tour” (1988-1990), cada um pegou um avião particular e o contato entre eles cessou por meses. As incertezas só foram dissipadas quando o grupo contratou um psicólogo, resolveu suas intrigas internas e decidiu que, para o Bon Jovi continuar, era necessário entregar no mercado um disco “diferente”.

Diferença que já fica clara no primeiro single do álbum, a faixa-título. Com um aspecto mais sombrio, elaborado, abandonando a sonoridade hard rock vinha com a inteção exata de diferenciar o Bon Jovi do início dos anos 90 da banda da década anterior.

O Bon Jovi de Slippery e New Jersey, sem dúvida, foi triunfante. Mais de 300 apresentações, canções diversas tocando nas rádios. Cabelos grandes, roupas de jeans rasgado, estilo semelhante ao das principais bandas que chamavam a atenção dos jovens norte-americanos, especialmente as de Glam Metal. Canções sobre sexo, amor, fama e dinheiro deu corpo a bandas como Motley Crue, Poison, Hanoi Rocks e outros. Para dar o argumento final de que o Bon Jovi era mais um pertencente a esse grupo, às principais cenas do Glam Metal (ou Glam Rock, como preferir) era Los Angeles e New York. E New Jersey é bem ali do lado da segunda.

Mas, de repente, o tempo passou. A euforia, extravagância dos anos 80, junto com a sensação de que tudo era possível e que a tríade sexo – drogas – rock’n roll era o suficiente para dar harmonia e alegria a todos, desapareceu e saiu do mapa. Os Estados Unidos, e junto com eles toda a cena musical mundial, foi seduzida por outra concepção de vida e de canções, conhecida hoje como a “revolução de Seattle”. Bandas como Stone Temple Pilots, Pearl Jam, Hole, Soundgarden, Alice in Chains e o principal nome do grunge – Nirvana – mostraram uma faceta densa, pesada, tomada pelos sentimentos depressivos da juventude. A angústia trazida pelas dificuldades econômicas do final do período Reagan. O abandono do colorido para o uso de tons cinzas, escuros, carregados. Como disse alguém que não vou me lembrar o nome (mas estão aqui os “créditos honrosos”), o grunge mostrou para o mundo que os jovens eram infelizes.

Diante de tal mudança de contexto, o que fazer? O Bon Jovi vinha de 4 anos de sucesso absoluto, se tornando um dos principais nomes de um movimento, uma visão de mundo, que foi totalmente pulverizada. O grunge parecia influenciar todos os segmentos do rock de alguma maneira, pois mesmo que algumas bandas não adotem o estilo carregado, outros aspectos como mudanças de visual, letras de teor apocalíptico e o uso de ironias e sarcasmo foram adotados por bandas das mais diferentes trajetórias, como “Achtung Baby” (1991) do U2.

Algumas bandas preferiram não mudar. Outras decidiram se adaptar aos novos tempos. E o Bon Jovi adotou a segunda opção, e deixou claro pra todos logo no início do vídeo de Keep The Faith, apresentando um John de cabelos curtos, de mudança no vestuário. No álbum, temos pérolas como Dry County, uma espécie de reflexão sobre o mundo ao redor que não teria sido possível em qualquer outro período da banda (com a óbvia exceção de These Days, de 1995, álbum que se encontra no mesmo contexto daquele).

Os temas de amor persistem, é claro, mas toda a sonoridade do álbum é mais densa, mais carregada, um pouco mais pesada. Na batalha entre não mudar e seguir os rumos dos novos tempos, o Bon Jovi decidiu seguir o segundo caminho.

Isso não significa, contudo, que as pessoas possam dizer aquela frase que os puritanos adoram dizer – “O Bon Jovi se vendeu”. Para mostrar a falsidade dessa argumentação, permitam-me utilizar um exemplo bastante atual: Justin Bieber. Justin se popularizou com um conjunto de canções que fazem parte do universo de adolescentes, em especial o público feminino. Daqui a dez anos, esse público estará adulto, e com a idade vem gostos e prioridades diferentes. Hoje Justin está no topo da carreira, mas para se manter vai ter que introduzir mudanças na sua composição em breve, não só para acompanhar o crescimento de suas fãs, mas também para tentar abarcar um público maior. Todo mundo que vive de música precisa mudar. O Bon Jovi, felizmente, entendeu isso e mudou no início dos anos 90, e mudou de novo no início dos anos 2000. Pois, como dizia Henrique Portugal do Skank, “ou a banda se renova ou morre”.

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