Dido – Life for Rent (2003)

Muitas pessoas torceram o nariz quando o consagrado rapper Eminem gravou um clipe em conjunto com a até então desconhecida cantora Dido e essa última viu a sua carreira decolar. Alguns críticos mais ferozes chegaram a dizer que a garota teve favorecimento, emergindo da sombra para as principais rádios do mundo pelo puro e simples fato de ter padrinhos poderosos. É bem possível que muitas pessoas tenham abraçado a carreira de Dido no início, somado ao fato de que a cantora é filha de um importante industrial britânico. Mas se algumas das críticas não procediam com o interessante “No Angel” (2003), “Life for Rent” (2003) foi uma bela resposta aos olhares desconfiados que cercavam a cantora, e na minha opinião, um dos álbuns mais bacanas do ano de 2003.

Embora não tenha feito um massivo hit (certamente as pessoas se lembram mais de “Thank You” – talvez mais pela versão com Eminem – do que “White Flag”), o álbum conseguiu colocar nas rádios pelo menos quatro canções, o que assegurou boa vendagem (e, não tem jeito, no mercado de hoje as coisas só funcionam se o produto vender de imediato, não importando a qualidade) e uma turnê de grande porte. “Life for Rent” também foi a última vez que a cantora figurou na grande mídia, o que faz com que seu nome esteja envolto por uma atmosfera nebulosa na cabeça dos mais jovens.

“Life For Rent”, em geral, é bastante equilibrado, com poucas oscilações. O álbum recebeu um esforço em termos de produção e mixagem maior do que o álbum anterior, solidificando assim a proposta da cantora de desfilar sua suave voz (com poucas variações entre agudo e grave) em cima de órgãos e bases acústicas. O toque de eletrônica com que “No Angel” encerra aparece aqui de forma mais tímida em “Stoned”, mas não sobrevive com o passar das faixas.

O álbum abre com o principal single, “White Flag”, canção que até hoje convence, um manifesto de não-rendição a um amor que se desenvolve sem pressa. Chega a ser estranho ouvir aquela voz suave cantar “when you’re stoned baby and I’am drunk…”, primeiro trecho de uma peculiar faixa: “Stoned”. Ela consegue ter uma pegada bastante característica das canções pop-radiofônicas sem necessariamente se entregar àquele estilo, mantendo a aparência suave e sem pressa apresentada pela faixa anterior.

Em “Life for Rent”, temos uma similaridade com o estilo do álbum anterior, uma canção apoiada na melodia da voz da cantora sem a parede de órgãos atrás. Boa canção de caráter comercial que mantém o nível do álbum, algo também sustentado pela acústica “Mary’s In India” e a meio sombria meio melancólica “See You When You’re 40”.

“Don’t Leave Home” segue a linha de “Life For Rent” de canção simples e comercial. Possui forma de canção de amor, mas em alguns versos sugere uma compulsão doentia por uma outra pessoa (outras interpretações sugerem que a canção fala sobre dependência química): “So close the blinds and shut the door… You won’t need other friends anymore”.

“Who Makes You Feel” representa uma certa quebra, devido às mudanças vocais da cantora e da estrutura da melodia, antes constantes nas faixas anteriores. Lembra vagamente “Slide” do álbum anterior e é a que menos convence em todo o disco. Ou a que mais se destaca para outros, dilema esse que é a eterna sina de canções de tonalidades diferentes que suas irmãs.

“Sand In My Shoes” recupera o fôlego do álbum, balada das mais contagiantes do disco graças à sua trabalhada introdução, embora não acrescente nenhum elemento novo que já não tenha sido apresentado na primeira metade do disco. As três últimas faixas já mostram um certo cansaço do álbum, com linhas melódicas mais pobres, repetitivas ou muito longas. Escondida lá no final do álbum tem “Closer”, canção de apenas voz e violão, simplesmente uma das melhores do disco e da carreira da cantora (e baita injustiça não ser mencionada em nenhum lugar do encarte).

“Life for Rent” é daquele tipo de álbum que, da primeira até a última faixa, mantém-se fiel a uma clara proposta sonora que oferece segurança, uma garantia de conhecimento do caminho que se vai percorrer. Ótimo disco, que nos faz lamentar o fato da cantora não ter manifestado até agora (oficialmente) a vontade de retomar sua carreira após o controverso “Safe Trip Home” (2008).

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