Revisitando um Clássico: R.E.M. – Automatic For The People (1992)

Em geral, o negócio musical funciona sob uma espécie de modus operanti: O artista lança um álbum com canções inéditas, espera o mercado absorver o material e, alguns meses depois, sai em excursão tocando um set de músicas que privilegia o novo trabalho durante um ano ou dois. A turnê é financiada por gravadora, empresários e patrocínios diversos,  muita gente querendo lucrar com uma banda com grande sucesso imediato. Certamente a gravadora e alguns empresários foram à loucura quando o R.E.M., após dar luz ao álbum “Out Of Time” (1990) – contendo nada mais nada menos que o clássico absoluto “Losing My Religion” – decidiu ignorar o frenesi gerado em torno do seu nome e trocar uma agenda de turnês pela tranquilidade de sua cidade natal.

A opção, em tese, seria desastrosa comercialmente, pois a indústria de turnês gera um marketing constante, ajuda (pelo menos naquela época) a manter as vendas dos discos e permite que a banda se apresente a um grande leque de pessoas que vão desde os fãs mais fiéis a cônjuges, pais ou tios que não conhecem a banda e estão apenas acompanhando. Fazer turnê significava e significa manter seu nome em evidência em algum lugar do mundo e, por haver saído do meio underground poucos anos atrás, o R.E.M. precisava desse tipo de reforço para se firmar de vez como um grande nome.

Era esse tipo de pensamento que cercava a banda quando ela decidiu se recolher. E foi também esse pensamento que a banda derrubou quando “Automatic For The People” (1992) chegou às lojas e se tornou instantaneamente o disco-referência do grupo. Embora possua uma canção do calibre de “Everybody Hurts”, “Automatic” é basicamente um disco sem hits radiofônicos (ao contrário dos anteriores), o que torna mais notável o feito do disco.

Após terminarem os trabalhos de “Out Of Time” – um disco com referências folk e tido por muitos como “alegre” – o quarteto formado por Michael Stipe (vocais), Bill Berry (bateria), Mike Mills (baixo) e Peter Buck (guitarra) decidiram que o próximo disco deveria ser pesado e barulhento. Contudo, ao longo das sessões, um imprevisto: o material mais pesado não agradou a nenhum dos membros e o material mais calmo, mais sombrio e cinzento começou a se impor. O R.E.M. só conseguiria o formato de álbum pesado em “Monster” (1994), e depois só em “Accelerate” (2008).

O grande triunfo de “Automatic For The People” é o equilíbrio entre as faixas, todas elas – como sugere a capa – apresentadas sobre um clima cinzento, sombrio, quase que melancólico. Ao mesmo tempo, as canções conseguem desenvolver certa individualidade – “Drive” é sombria, “Try Not To Breathe” é um exercício de reflexão, “Everybody Hurts” traz um clima de ressaca, “Ignoreland” é barulhenta e apresenta um discurso político recitado, pela impressão que dá, com um megafone. Existe um clima geral no álbum que não impede que cada uma das canções contribua para uma variedade sensitiva. Um conjunto de cores em meio ao cinza.

Costumo enchergar um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos em três atos: de “Drive” até “Everybody Hurts”, com a apresentação da proposta sonora do disco, mais lenta, arrastada, quase que melancólica. A segunda, de “Sweetness Follows” até “Star me Kitten” apresenta temas variados, desde referências a antigas estrelas do cinema até um (será?) desejo sexual revelado. Finalmente, a última parte, de “Man On The Moon” em diante apresenta mais tonalidades de cores, com canções de temáticas bem mais sonhadoras, o que transmite uma sensação de leveza no ouvinte ao final da gravação.

Quando “Automatic” saiu, novamente a banda tomou a decisão de não sair em turnê, mesmo com a alta demanda e o segundo sucesso seguido da banda sem precisar de promoção. O R.E.M. havia se tornado uma banda gigante, clássica, da forma mais improvável possível. “Automatic” é o ponto alto de um dos períodos mais criativos da banda, e até hoje é uma ótima referência pra quem estiver disposto a ouvir um grande álbum.

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One thought on “Revisitando um Clássico: R.E.M. – Automatic For The People (1992)

  1. Lindo, lindo, lindo… um espetáculo esse álbum… que dizer de um disco que TODAS as faixas beiram a perfeição: como Find the river, Nightswimming? Eles nunca mais fizeram nada nesse nível… chegaram no auge. Saudades dos anos 90…

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