Revisitando um Clássico: “Cavalo de Pau”, Alceu Valença (1982)

Dentre diversos mitos existentes no mundo da música, há um deles que diz que, para a canção encontrar identificação na massa, ela precisa ser simples. Nada de expressões, versos ou metáforas eruditas, pois entre “o amor é fogo que arde sem se ver” e “ai, se eu te pego”, a segunda é mais facilmente absorvida e identificada pelo público brasileiro. Lentamente, o mercado foi absorvendo a ideia, tornando a mensagem clara condição indispensável para que o dinheiro seja investido. Isso, para mim, resume bem a cena sertaneja e forró pós-universitário: a busca pela simplicidade e letra direta.

Há uma certa verdade nesse axioma. Contudo, a sua “eficácia” é apenas recente, pois no final dos anos 70 e início dos anos 80, houve uma proliferação de diversos artistas nordestinos que decidiram aliar a sua erudição (a maioria frequentou a universidade antes de colocar o violão debaixo do braço) a ritmos de sua região – forró, xote, baião, lambada. Em pleno debate acerca do uso ou não da guitarra elétrica na Música Popular Brasileira (houve até uma passeata contra a guitarra elétrica, tendo como um dos líderes – pásmem! – Elis Regina). Para esses artistas, a discussão passou pela tangente, e a guitarra elétrica foi elemento central para muitos.

Para dar nomes aos bois, esses são os artistas que são até hoje referências para a música regional: Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho… E Alceu Valença. Em uma época em que o rock patinava numa transição incerta entre Raul Seixas – Rita Lee & Trutti Frutti e o B-Rock (que teria início com “As Aventuras da Blitz 1”, também de 1982), Zé Ramalho e Alceu Valença acabaram por ser adotados por fãs de rock, mesmo com toda a bagagem regional que carregavam. Não à toa, Alceu fez um dos shows nacionais mais celebrados do Rock In Rio 1985, e Zé do SWU do ano passado. A referência até hoje se mantém.

Todo esse contexto é importante para entender o porquê de “Cavalo De Pau” ter sido tão bem sucedido – o álbum vendeu nada menos que 1 milhão e meio de cópias, vendagem arrasadora em uma época em que a ditadura ainda cambaleava frente as dificuldades econômicas geradas pelo contexto internacional. É dele também três dos principais sucessos de Alceu, obrigatórios em todos os shows: “Tropicana”, “pelas Ruas Que Andei” e “Como Dois Animais”. A canção “Cavalo de Pau” também pode ser facilmente reconhecida , o que significa que 50% do disco é conhecido nacionalmente. Se isso não o torna clássico, não sei mais o que isso é.

O álbum é a culminação de um processo que se iniciou com Alceu rumando para a Europa, após diversos desentendimentos com as gravadoras. Lá organizou seus planos, sentiu o peito mais pesado por estar longe do nordeste e voltou para o Brasil com o álbum “Coração Bobo” (1980) nas mãos. Logo teria uma virada em sua carreira e venderia milhares de cópias ao apresentar diversos trabalhos que mesclam forró, xote, baião e, porque não, uma pegada de rock.

O que impressiona em “Cavalo de Pau” é que o álbum consegue se comunicar com todos os tipos de públicos (como as vendas e as canções bem-sucedidas sugerem) sem abandonar uma sofisticação lírica rara. Em “Rima Com Rima”, Alceu canta: “se eu rimar rima com rima, é tangerino tangerina, pirapora petrolina, se eu rimar rima com rima”. Ao mesmo tempo em que existe o jogo de palavras, a maneira como é cantada remete a uma feira, onde cada vendedor busca atrair pelo grito os clientes para os produtos de sua barraquinha.

“Tropicana” também se vale do mesmo jogo de palavras, ao brincar com os dotes de uma linda morena e com mangas, melões e jaboticanas: “Pele macia, é carne de cajú… Saliva doce, doce mel, mel do uruçu”. As canções de amor de Alceu flertam diretamente com o orgulho de seu conterrâneo das riquezas que sua terra possui. Em “Como Dois Animais”, a abordagem ganha um tom naturalista, em que o “olhar vagabundo de cachorro vadio olha a pintada e ela estava no cio”. linguagem animal para o comportamento mais instintivo do ser humano.

Quando não brinca com palavras e imagens, Alceu simplesmente canta em letras curtas ideias simples. Em “Pelas Ruas Que Andei”, ele roda as cidades procurando alguém, temática semelhante em “Maracatu”. A faixa-título “Cavalo de Pau” volta a brincar com uma linguagem denotativa, parecendo ser uma espécie de procura interna por suas origens “depois que vim pra Capital”.

“Cavalo de Pau”, ao ser revisitado nos dias de hoje, até hoje delicia pelas sanfonas, o vocal ritmado de Alceu e suas letras que abdicam da simplicidade e do eruditismo hermético para evocar imagens. É uma aula de como produzir uma obra facilmente entendida por qualquer um, mas rica e complexa.

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