Documentário: Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa (2009)

Imagine que você tem uma banda de garagem, montada com o propósito de se divertir e, por que não, tentar um lugar ao sol. Embora as ambições sejam grandes, o cotidiano vivido é ordinário, a banda de garagem é apenas mais uma banda caseira e nada naquela situação indica que se vive um momento especial. Mesmo assim, um dos membros insiste em filmar diversos momentos-chave do grupo como banda, desde os mais divertidos até os mais tensos. Foi assim que Branco Mello, sem saber o que sua banda significaria para o rock nacional, registrou durante 20 anos mais de 200 horas de filmagens de sua banda, os Titãs. A enorme quantidade de material precioso fez com que, em 2003, Branco se juntasse ao cineasta Oscar Rodrigues Alves para separar o joio do trigo do material, além de complementar o acervo com uma busca por entrevistas e filmagens de diversas emissoras de TV. O trabalho se desenvolveu de forma lenta, e somente em 2009 a montagem do material selecionado viu a luz.

Devido a essa estrutura, o filme-documentário “Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa” não possui uma linha narrativa clara. O filme todo se consiste em uma montagem desses diversos vídeos gravados, o que faz com que essa concha de retalhos tenha diversos níveis de qualidade de imagem e de som. Como não existem legendas ou vozes em off para informar ao espectador o período da banda daquela filmagem, talvez seja mais difícil identificar as mudanças de fases para quem não é fã da banda, pois apenas as músicas tocadas informam que passamos de um período para outro.

Esse tipo de material também se destaca pela forma que mostra a banda, quase sempre em momentos de descontração, onde os ombros estão mais relaxados e aquela postura à lá “entrevistado” está ausente (com exceção dos vídeos de emissoras de TV). ao longo de todo o filme, vê-se jovens magricelas de 20 e poucos anos de idade que se tornam homens de meia-idade divertindo-se em cachoeiras, estúdios, bares, casas, hotéis… Não é a toa que o título do filme é um trecho da letra de um dos clássicos do grupo, “Diversão”, pois as câmeras captam jovens bagunceiros (no melhor sentido da palavra) que encontravam sua união nos momentos descontraídos. Considerando que houveram 8 Titãs que queriam sua voz em todas as decisões até 1992, essa união conquistada não é algo a ser desconsiderado.

Ao mesmo tempo em que o documentário passa essa imagem de “portas abertas” ao íntimo da banda, as vidas pessoais dos integrantes passam em branco. Não há menção alguma a aniversários, namoros, casamentos, filhos ou qualquer coisa relacionada à vida fora da banda, instinto de preservação que alguns documentários têm adotado desde que “Some Kind of Monster” mostrou para o mundo todo um Metallica em frangalhos, condição essa que certamente muitas bandas buscam esconder.

Mas quem conhece a história dos Titãs sabe que existem momentos que, se não tensos, podem ser complicados de ser revisitados, e é aqui que o documentário mostra a maestria de sua edição. Durante a sessão de estúdio de “Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas” (1987), o baterista Charles Gavin leva uma dura do produtor Liminha por insistir em diversas viradas de bateria quando todos entendiam que a bateria tinha que ser mais limpa. Visivelmente contrariado por não poder tocar como deseja mas sem forças para reagir, Gavin cede. O clima de tensão rapidamente é apagado com a cena em que Liminha e toda a banda abraça Gavin como um ato de reconciliação, necessária para que o clima de festa da película pudesse ser retomada.

Os outros momentos complicados foram as saídas de três integrantes: Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Nando Reis. O documentário mostra a saída do primeiro como algo amigável pois, mesmo fora da banda, Arnaldo ainda frequentava o círculo social, recebia a banda para festas na sua casa e estava presente, ao lado de todo o grupo, no velório de Fromer. A morte do segundo em 2001 ainda emociona pela aparência abatida dos membros, e também na cena em que o corpo de Fromer era enterrado com as pessoas cantando “Pra Dizer Adeus”. Considerando a tônica de todo o filme, a morte de Fromer funciona como um baque, uma constatação de que a vida até parece uma festa, mas não é apenas isso.

A saída de Nando Reis, apesar das tentativas da película de suavizá-la, pareceu mais tensa. A expressão com que Nando olha a lista de faixas de “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana” (2001) é emblemática. Não é menos simbólica a postura corporal de Charles Gavin quando diz que “não queríamos que ele saísse. Foi ele que quis”. Dá a impressão também de que o sucesso de “Epitáfio”, para alguém que havia perdido Fromer e Cássia Eller, foi a cereja de um bolo ornamentado. A saída de Nando é um dos últimos fatos narrados pela película, pois o filme termina em 2003, com a turnê de “Como Estão Vocês?” (2003).

Assim, por pouco mais de 100 minutos o documentário mostra a trajetória de uma das bandas mais importantes do chamado B-Rock sob os olhos de quem estava no olho do furacão. O filme não foge dos momentos mais complicados, mas os suaviza o bastante para não atrapalhar o clima de celebração que o documentário possui. A película, por fim, funciona como embasamento para a letra da canção que abre e encerra o filme: “Diversão é solução sim!”

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