Skank – Skank 91 (2012)

No meio musical, geralmente é comum um artista dizer que tem de 60 a 70 músicas prontas para o próximo álbum. Pessoalmente encaro esse tipo de declaração com certo ceticismo, pois certamente a maioria dessas “músicas” na verdade são riffs isolados ou ideias de melodia que precisam de sofisticação. Esse tipo de declaração, contudo infere que a concepção de um álbum sempre têm uma etapa de seleção: uma canção se prova mais competente que a outra, ou passa por uma grande reformulação para chegar na sua forma final.

Muitas bandas costumam lançar de tempos em tempos discos extras, ou faixas especiais ou caixas com esse tipo de material que, se parece dispensável à primeira vista, torna-se preciosíssimo na medida em que testemunha um tempo, um espírito, uma musicalidade que estava impregnada naquele artista naquele tempo. Se muitas bandas estrangeiras gostam de lançar esse tipo de material, por outro lado quase não se vê isso na cena brasileira, talvez consequência de uma estrutura, público e alcance mais modesto. Isso certamente ajuda a entender a importância de um disco como “Skank 91” na discografia da banda mineira.

“Skank 91”, é preciso mencionar, de forma alguma é um novo álbum da banda, pois todas as gravações são do ano de 1991 – justificando assim o título. Ainda parte das comemorações de 20 anos da banda (embora os 21 já foram completados), o grupo de Samuel Rosa e companhia reuniu suas primeiras gravações e experimentos ao registro de áudio do primeiro show da banda num único semi-círculo de acrílico. Muitas canções entraram no primeiro disco da banda, como “Macaco Prego”, “Baixada News”, “Let Me Try Again”, “O Homem que Sabia Demais” e “In(Dig)Nação”, mas o barato daqui é mostrar versões bastante diferentes, gravadas com o dinheiro suado dos pequenos shows gasto em estúdio, sem os grandes cuidados e privilégios que cercam a gravação de uma banda grande.

Por essas razões, “Skank 91” é um álbum mais indicado para o fã de longa data, que conhece e acompanhou as diversas mudanças de sonoridade da banda em toda a sua discografia pois, como o próprio Samuel Rosa falou, o álbum contém a “pré-história do que seria o Skank”, uma busca por um caminho a seguir. A diversão do álbum é encontrar aquela batida dominante mais à frente que aqui é discreta, ou aquela cadência dominante aqui que desaparece acolá. O próprio fato de que o álbum não possui nenhum single (e nenhum vídeo no YouTube) já demonstra a sua não-intenção radiofônica.

Talvez o momento mais divertido do disco seja o início da segunda parte, com a gravação (cheia de ruídos, afinal, estamos falando de uma banda que fazia o seu primeiro show), em que o hoster da casa lamenta o fato da casa estar vazia (embora, diga-se de passagem, Charles Gavin – Titãs – e André Jung – Ira! – estavam na casa. Faltou quantidade, mas sobrou qualidade), mas que havia no palco uma banda com um “baita som” e era um momento histórico (quem diria que ele estaria certo?). “Com vocês, Skééink”. Após a apresentação, dois bateres de palma e um tímido “Ooouuu”. Impossível não conter o riso.

Finalmente, o grande problema do álbum. Se as canções servem como curiosidade e coleção para o fã de longa data, ao serem analisadas como “músicas”, o álbum não se sustenta. Existem momentos interessantes como “Telefone” e “Gentil Loucura”, mas é fato que, entre o Skank de 1991 e o de “Calango” (1993, disco analisado aqui), a diferença e evolução é abismal. Mesmo o Skank do disco de estréia já apresenta um refinamento e maior domínio da sua ideia de som maior do que aqui.

Dessa forma, “Skank 91” é uma ótima ideia, mas ainda não supre a ansiedade por um novo trabalho de inéditas que não vem a quatro anos. O projeto é válido não apenas para suprir a curiosidade de seus fãs, mas também pela própria valorização de sua história. Tem diversos artistas que, guiados por um vício perfeccionista, privam seus fãs de seus caminhos tortuosos. Mesmo não apresentando nada digno de figurar entre as grandes gravações da banda mineira, “Skank 91” possui orgulho de trazer à tona o período em que uma das bandas mais populares do país (desconfio ser a mais popular) era apenas mais uma lutando por um lugar ao sol.

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