Pato Fu – “Toda Cura Para Todo Mal” (2005)

O Pato Fu é uma banda indicada para todo ouvinte que, por ventura, gostar de um paradoxo. Revelada na mesma cena mineira que, nos anos 90, alçou ao mainstream bandas como Skank e Jota Quest, o Pato Fu, ao contrário das outras citadas, sempre gostou de ter um pé bem fincado no bizarro, no non-sense, no não-convencional. Verdade que também existem as canções de sucesso, mas para cada “Antes que seja tarde” ou “Depois”, existe um “Capetão 66.6 FM” e “Rotomusic de Liquidificapum” para equilibrar. Em toda a sua discografia, o grupo vem estabelecendo um equilíbrio entre baladas suaves, geralmente lideradas pela doce voz de sua vocalista – Fernanda Takai – e canções mais agressivas, seja pelo peso das guitarras ou pelo conteúdo de sua letra, geralmente lideradas pelo guitarrista John Ulhoa. “Toda Cura Para Todo Mal”, primeiro disco lançado após o maior período de exposição devido ao seu “MTV Ao Vivo” (2002), carrega esse cerne da banda em toda a sua estrutura.

No início do texto, denominei Pato Fu como um paradoxo porque, em certo sentido, “Toda Cura Para Todo Mal” nos remete tanto aos Mutantes quanto à Jovem Guarda. Todas as canções, digamos, convencionais do disco carregam uma estrutura musical que remete aos “Iê Iê Iê’s” do período, enquanto nas canções mais “alternativas” encontramos a irreverência que aquele grupo trouxe à tropicália nos anos 60. Quem conhece a história da música do país, sabe que Jovem Guarda e Mutantes se moviam em direções totalmente opostas, o primeiro representando os ideais de juventude e o outro tido como exemplo de rebeldia. Em “Toda Cura Para Todo Mal”, as estruturas avançam na mesma direção. Paradoxo dos mais interessantes, pois desperta interesse ao longo de toda a duração do disco.

O álbum abre com o rock “Anormal”, uma rock suave liderada por Fernanda, sobre a sua obsessão em ver o seu amado em todo lugar. A estrutura sessentista dá lugar aos sopros, riffs de guitarra pulsantes e a letra provocadora de “Uh Uh Uh! Lá Lá Lá! Ié Ié!” – “as pessoas tendem a acreditar / em forças invisíveis pra fazer o bem / tudo o que se vê não é suficiente / e a gente sempre invoca o nome de alguém” (…) “é certo que milagre pode até existir, mas você não vai querer usar… Toda cura para todo mal está no hipoglós, no merthiolate e sonrisal”. Eis o emblema do Pato Fu: canções provocadoras com uma estrutura melódica que jamais sugere o seu tema apenas por ela. A canção, desde então, é uma das favoritas da banda e do público em suas apresentações.

A histeria se encerra com a tranquila “Sorte e Azar”, que dá margem a outro rock de estrutura mais cadenciada pela bateria – “Amendoim” -, que carrega em seu refrão uma certa infantibilidade que, mais uma vez, combina muito com a Jovem Guarda – “todo dia nasce um bebê pra dividir a vida com você”. “Simplicidade” brinca com a junção de uma letra de clima bucólico sobre a vida simples cantada por um… Robô. Novamente, o paradoxo que atua quase como um manifesto para a canção (e também para o álbum).

O álbum dá uma balançada com algumas canções medianas, como “No Aeroporto” e “Estudar pra que”, sendo essa uma canção irônica que possui uma estrutura “ok”, mas é como se algo saísse forçado, comprometendo toda a faixa. O fôlego é recuperado com, definitivamente, a melhor parte do álbum – a sensacional “Vida Diet” e “O Que é isso?” (única canção não-convencional liderada por Fernanda). As três últimas canções do disco parecem ter sido feitas exatamente com o intuito de fechar o disco, cumprindo o seu papel com instrumentais um pouco mais longos.

“Toda Cura Para Todo Mal” se apresenta como um ótimo ponto de entrada para quem por ventura não conhecer o trabalho do Pato Fu e não se importar de não começar com os álbuns clássicos da banda. Entre acertos e erros, o álbum ilustra o fato de que a banda está firme em seu projeto de identidade sonora, não importando o contexto ou as imposições dos novos tempos em que se encontram.

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