Livro: “Os Paralamas do Sucesso – Vamo Batê Lata”, Jamari França

Quando Mark Blake apresentou um livro sobre o Pink Floyd para Roger Waters, em uma das várias sessões de entrevistas para pesquisa de seu texto sobre a banda (resenhado aqui), tinha o objetivo de averiguar a autenticidade de uma das histórias relatadas. Demonstrando irritação, Roger se virou em direção à janela. Com os olhos fixos na paisagem urbana – uma vasta paisagem de concreto que preenchia todos os lados da janela de seu escritório em Manhattan, Waters aconselhou à Blake: “não acredite em tudo o que você lê”.

O episódio acima relata uma espécie de tensão entre membros de uma banda que buscam uma capa de proteção para a sua privacidade, e o assédio por parte de jornalistas e fãs por histórias. O mundo deseja o fim do mistério, enquanto banda busca guardá-los para si. Nesse cabo de força, milhares de histórias e boatos dão margem à especulações diversas – afinal de contas, o quanto que sabemos sobre os últimos anos de vida de Michael Jackson? É difícil identificar o real e o não-verossímil dentro de uma paisagem enevoada.

O livro de Jamari França, lançado em 2003 – em meio à catarse do retorno dos paralamas do Sucesso após um grave acidente que quase tirou a vida de seu vocalista -, ao contrário de muitas outras biografias, não promete contar “a história que você nunca viu antes”. Fruto das próprias experiências do autor para com a banda com diversas entrevistas realizadas ao longo de quase 15 anos, o livro busca se equilibrar entre a imagem intocada de seus biografados e  a satisfação das respostas por fãs e interessados em geral. Sob a forma de um texto truncado, França busca satisfazer as curiosidades mais  essenciais da história da banda – como Herbert e Bi começaram a tocar juntos; quem foi Vital, primeiro baterista do grupo e ocasionalmente citado ao longo da discografia do grupo (“…se Vital escrevesse a constituição…”); Quem é vovó Ondina, homenageada na faixa “Vovó Ondina é Gente Fina”, do primeiro disco do grupo; qual a relação do embrião dos Paralamas com a cena do rock dos anos 80; como João Barone impressionou a todos com seu virtuosismo técnico; e o que passavam em suas cabeças quando decidiram apostar todas as fichas em um álbum com influências africanas e latinas.

Por buscar responder apenas as questões essenciais da formação da banda, é seguro dizer que o livro possui uma inclinação maior para os recém-iniciados na discografia do grupo – certamente há poucas novidades para quem acompanha os Paralamas do Sucesso há um tempo. Essa proposta, contudo, faz com que o texto perca o fôlego ao abordar o período em que som, forma e conteúdo estão bem definidos. O capítulo sobre a turnê do álbum “Vamo Batê Lata” (1995), possui apenas 12 páginas, número um pouco superior ao do capítulo seguinte – “Nove Luas” (1996). Nesses capítulos, o recuo de França a um contato mais íntimo dá rigidez à estrutura textual dos capítulos, quase sempre na ordem “conceito do álbum” + “faixas” + “turnê”.

O texto pode ser um pouco decepcionante também no período de crises – a época de “Os Grãos” (1991) e o acidente de ultraleve que deixou Herbert paralítico e matou sua esposa – devido ao distanciamento e o caráter sintético do texto. No caso do acidente de Herbert, a formação do autor dá uma ênfase bastante jornalística, com fatos, etapas da recuperação, discussão acerca de erro mecânico x erro humano e as manifestações de apoio de fãs e amigos. O texto apresenta uma espécie de relatório, o que pode desagradar quem espera um outro tipo de abordagem de maior fôlego.

Entre os méritos do texto está o empenho do autor de cobrir todos os passos dos Paralamas em terras estrangeiras (prioridade do grupo após a brusca queda nas vendas de discos, consequência da recessão econômica), com turnês, discos, acertos e tropeços (embora o livro deixe em aberto a questão do porquê da banda deixar de investir em uma carreira internacional. Talvez pelo estado de saúde de Herbert?). O texto também é o primeiro que vi que aborda TODAS as canções da discografia oficial, fornecendo assim comentários interessantes sobre origens e inspirações.

Finalmente, o capítulo final “I Love Lucy”, um relato sobre a história do casal Herbert e Lucy, duramente interrompida pelo acidente de 2001, dá ao texto uma dimensão humana não só a Herbert, mas também nos rápidos comentários sobre a vida pessoal de João Barone e Bi Ribeiro. Em caso de uma possível reedição com capítulos adicionais (afinal, dez anos se passaram), essa abordagem mais humana pode dar aos períodos de “Hoje” (2005) e “Brasil Afora” (2009) uma dimensão mais rica, interessante e atrativa.

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