Canções Notáveis – “Tears In Heaven”, Eric Clapton (1992)

No dia 20 de março de 1991, quem passava pelas ruas de Nova Iorque viu um acontecimento traumático. Um menino de 4 anos se apoiava em uma janela sem proteção no 53o andar de um apartamento. O pior aconteceu, e o menino escorregou e caiu. A polícia chega quase que instantaneamente. Curiosos cercam o local. Minutos depois, o pai, Eric Clapton, chega na cena do crime para presenciar o que mais temia: seu pequeno garoto estava morto.

A bombástica notícia ocupou os noticiários, os programas de auditório, os jornais impressos, as conversas em mesas de bar. Clapton, um guitarrista lendário com carreiras bem-sucedidas com Yardbirds e Cream e solo, se isolou. O casamento com a mãe do menino ia de mal a pior, e com essa tragédia, degringolou de vez. Apenas alguns meses antes, seu empresário e dois roadies morreram em um acidente de helicóptero. Havia uma maré sombria pairando no ar, e a vida pessoal do guitarrista desabava.

A dor era intensa e Eric precisava arrumar um jeito de fazê-la sumir ou ao menos se distrair. Para isso, aceitou uma proposta para a composição da trilha sonora do filme “Rush”. Trabalhando com Will Jennins, escreveu “Help me up” para a sequência final. Contudo, decidiu escrever outra música, agora sobre o seu menino. Nasce assim uma das baladas mais lindas que o rock já concebeu: a triste e emocionante “Tears in Heaven”.

“Tears in Heaven”, como o próprio Clapton declarou em diversas entrevistas, é uma canção que chocou a todos com o seu sucesso gigantesco, pois no início ela apenas fez parte do lento e doloroso processo de absorção do sofrimento de Clapton. Olhando a sua letra, percebe-se que não é uma canção de luto. A canção não é sobre Connor, e sempre parte do ponto de vista do próprio Eric: “Would you know my name if i saw you in heaven? Would you be the same if i saw you in heaven? I must be strong and carry on, ‘cause i know i don’t belong here in heaven” (Saberia o meu nome, se te visse no paraíso? Sentiria o mesmo, se te visse no paraíso? Preciso ser forte e seguir adiante, porque eu sei que não pertenço aqui no paraíso). O U2 em 2004 lançou uma canção de temática semelhante, onde o foco não está em quem se foi, mas sim em quem ficou e precisa lidar com sua dor.

Com o sucesso da canção, Clapton gravou a versão definitiva em seu Unplugged (1992) – um dos mais aclamados da série – e seu conteúdo emocionante fez a canção explodir em todo o mundo. Clapton Também aceitou participar de uma série de campanhas publicitárias, conscientizando os pais a colocarem proteção nas janelas. Sua ex-esposa declarou uma vez que nunca quis ouvir a canção, pelo sofrimento que lhe provocaria.

Em 2004, Clapton decidiu abandonar a canção (e “Your Father’s Eyes”) em seus shows. “Eu não sinto mais a perda, que é grande parte da performance daquelas canções. Eu realmente quero me conectar aos sentimentos que estavam lá quando as escrevi. Eles meio que sumiram e eu particularmente não os quero de volta. Minha vida é diferente agora. Elas provavelmente precisam apenas de um descanso e talvez as introduza novamente por um ponto de vista mais detalhado”. “Tears In Heaven”, apesar de seu sucesso improvável, foi feita para a cura catártica. Felizmente cumpriu o seu dever na vida do cantor.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s