Franz Ferdinand – Tonight (2009)

O movimento indie talvez tenha tido o seu nascimento nos anos 80, com o surgimento dos Smiths no cenário internacional. Com uma sonoridade muito diferente das canções sujas do hard rock, servindo de base para o timbre único de Morrissey, a banda parecia indicar um novo caminho para se fazer rock. Junto com Stone Roses e outras bandas que já circulavam há um tempo, como o Sonic Youth, além do movimento britpop (com o surgimento do Suede), não havia dúvidas de que um novo estilo dentro do rock, dominado por homens magros avessos ao estereótipo do rockstar, tomava força. Com o auge do britpop – a lendária disputa alimentada pela mídia entre o Oasis e o Blur – o indie já era um movimento mundial, apesar de sempre se associar com o underground.

A última década trouxe um novo surto de bandas. Os britânicos The Libertines disputaram espaço com os nova iorquinos do Strokes, a primeira banda americana a ser bem-sucedida no estilo (curiosamente o episódio lembra o prenúncio do punk, com os novaiorquinos Ramones chamando a atenção em um estilo que, em tese, era britânico). Seguiram a elas The Killers, Artic Monkeys e Franz Ferdinand, que souberam aproveitar o movimento da onda para conseguirem, cada um, o seu espaço.

O Franz certamente foi uma das bandas indie mais bem-sucedidas no Brasil. Quando veio para o país pela primeira vez em 2006, para abrir o show do U2, muitos jornalistas e fãs protestavam, exigindo uma apresentação solo da banda. Talvez o movimento hipster a tenha jogado pra escanteio exatamente por esse status de bem-sucedido, mas em tempos onde o indie cada vez mais migra do alternativo para o mainstream, a consagração de algumas bandas parece algo inevitável (vide Artic Monkeys e The Strokes).

A banda deve lançar um álbum em breve (até retornou aos shows, tendo feito um show em São Paulo em maio. Infelizmente, nenhum dos autores puderam comparecer). Até lá, vale a pena revisitar o mais recente álbum da banda, “Tonight” (2009).

“Tonight” (2009) nasceu com o objetivo de responder a um desafio que à toda banda bem-sucedida se impõe: depois dos ótimos “Franz Ferdinand” (2004) e “You Could Have It So Much Better” (2006), a banda precisava decidir que caminho tomar: seguir a sonoridade tradicional da banda, marcada pelo clima festivo e dançante, e correr o risco de vê-la se esgotar ou apresentar um álbum com uma estrutura diferente.

Nesse sentido, “Tonight” parece seguir os dois caminhos. À primeira ouvida, é mesmo um disco tradicional do Franz Ferdinand, mas outros aspectos diferentes vão sendo notados conforme o disco se acostuma ao aparelho de som. Para alguns, isso pode ser indicativo de mérito do disco, por apresentar diversas camadas. Para outros, é sinal de confusão e conservadorismo. Claro que isso não compromete as canções, que são boas. Mas, quando observadas sob o rótulo de álbum, demonstram fragilidades.

O álbum começa com três canções típicas do Franz Ferdinand – “Ulysses”, “Turn It On” e “No You Girls” – todas com a linha vocal irreverente de Alex Kapranos e estrutura musical dançante. Com “Send Him Away” e “Twilight Owens” (essa última, melhor faixa disparada do disco), o clima dançante e irreverente é afastado para uma estrutura mais sóbria (embora alguns elementos apareçam ocasionalmente no final de “Send Him Away”), e vocais mais arrastados. Em “Twilight Owens”, guitarra e piano contracenam juntos, formando uma estrutura à lá The Killers que funciona muito bem.

Mas essa direção mais autônoma do trabalho logo é suspensa para dar lugar à sonoridade dos trabalhos anteriores com “Bite Hard”, “Can’t Stop Feeling” e “What She Came For”. No caso das citadas, a banda aposta num som mais atmosférico, com interlúdios instrumentais formando um clima, mas que logo é interrompido pela estrutura indie que se impõe sempre que o disco tenta seguir outra direção.

“Tonight”, em geral, é formada por ótimas canções, que agradaram e agradam nos shows da banda. Mas o fato de que o álbum possui uma guinada para outro lado que é constantemente suprimida mina o álbum, tornando o conjunto confuso. Afinal, como aliar a velocidade de “No You Girls” com o longuíssimo final de “Lucid Dreams”? A principal prova do conservadorismo do álbum é que suas faixas mais diferentes – “Katherine Kiss Me” e “Dream Again” – são apresentadas como faixas bônus. Para o próximo passo, cabe à banda decidir aonde coloca os dois pés, atitude necessária para criar ótimos álbuns, e não apenas ótimas músicas.

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