Revisitando um Clássico: Capital Inicial – Rosas e Vinho Tinto (2002)

Em 1996, quando trabalhavam no disco que viria a ser chamado “Nove Luas”, os Paralamas do Sucesso decidiram gravar uma versão da canção “de música ligeira”, do grupo argentino Soda Stereo. A versão seguia o andamento da versão original, com um arranjo pesado e mesma linha vocal. Seis anos depois, vinha ao mundo a versão do Capital Inicial para a mesma canção. Na gravação do Capital, o ritmo ficou mais lento, violões davam a base para os versos e a letra autônoma em relação às duas versões que a sucederam. Batizada como “À Sua Maneira”, a canção explodiu nas rádios e rendeu grande atenção do público para o lançamento da banda na época, “Rosas e Vinho Tinto” (2002).

O sucesso de “À Sua Maneira” é um ótimo exemplo da natureza “sui generis” do Capital Inicial em relação às suas “irmãs”. Nascida em meio a explosão do rock nacional nos anos 90 (e do cisma do Aborto Elétrico, cujos integrantes se dividiram entre a Legião Urbana e o Capital), o grupo teve um período áureo com 5 discos de estúdio e várias canções tocadas nas rádios. A crise na indústria musical no início dos anos 90, onde as principais bandas do país passaram por dificuldades (Paralamas investiram na carreira internacional devido à frieza do mercado brasileiro, os Titãs sofriam com as críticas desfavoráveis, o Ultraje A Rigor ficou sem gravadora… Apenas a Legião e os Engenheiros do Hawaii passaram ilesos), foi acompanhada por sérios conflitos entre seus integrantes, o que culminou na saída do vocalista Dinho Ouro Preto da banda. Seus colegas seguiram adiante com o mesmo nome, mas sumiram do radar.

As desavenças foram suspensas no final da década, quando o Capital lançou o ótimo “Atrás dos Olhos” (1998). Os holofotes vieram com força apenas no passo seguinte, o “Acústico Mtv” (2000), talvez o primeiro da série que teve como efeito reapresentar uma banda veterana para um público jovem (Ira!, Engenheiros e Ultraje também se beneficiariam desse efeito).

Mas as coisas ainda não estavam estabilizadas. O guitarrista Loro Jones anunciou a saída da banda logo no início dos trabalhos para o próximo álbum, etapa importante para definir que destino o Capital tomaria no século XXI. O guitarrista Yves Passarell entrou em cima da hora, as gravações foram feitas, e o álbum chegou às lojas com a banda se perguntando o que aconteceria. O roteiro tinha grande potencial para o desastre. Mas aconteceu justamente o contrário.

“Rosas e Vinho Tinto” é um clássico porque, embora não necessariamente tenha o seu nome associado diretamente, basta olhar o tracklist para ver que várias de suas canções até hoje fazem parte do cânone clássico não apenas do Capital, mas também do rock brasileiro do início da década passada. Mas a sua importância vai além de singles bem-sucedidos.

Talvez seja a aparência jovem do vocalista ou a temática também jovem das letras, ou tudo isso junto. Mas “Rosas e Vinho Tinto” renovou a imagem de uma banda desgastada por tantas turbulências. Enquanto suas bandas irmãs atingiram o século XXI com o status de “bandas veteranas”, o Capital Inicial rejuvenesceu o seu som de forma tão eficiente que não parecia ter 20 anos nas costas. Passaram a ser reconhecidos não por clássicos de 20 anos, mas pela produção recente. Com exceção do Bon Jovi no contexto internacional (curiosamente quase ao mesmo tempo), não conheço outro caso semelhante.

“Rosas e Vinho Tinto” possui um ritmo fluído, sem transições abruptas entre canções lentas e pesadas. Abrindo com a ruidosa “220 volts”, mantém o ritmo agitado com “À Sua Maneira” e “Como Devia Estar”. Diminui o ritmo na bela “Inocente”, e obtêm o seu primeiro tropeço na fraca “Enquanto eu Falo”, passo em falso corrigido na ótima “Algum Dia” (que conseguiu tocar nas rádios como single do disco ao vivo de 2008). Daí em diante o álbum ganha vida própria, com um desfile de clássicos e de canções que, embora desconhecidas, ainda soam ótimas. Apenas “Falar de amor não é amar” (uma pálida balada à lá “Sweet Child O’Mine) parece deslocada da sequência final. Um equilíbrio que a banda conseguiu recuperar apenas em “Das Kapital” (2010), três discos depois.

“Rosas e Vinho Tinto”, após quase dez anos, continua sendo um ótimo símbolo do rock brasileiro dos anos 2000 que, é sim, muito bom. Talvez muitos ainda torçam o nariz, na insistência da tese de “decadência musical do presente”. O que não pode ser negado, contudo, foi a fantástica façanha do grupo em se reinventar e recuperar um espaço que parecia pra sempre perdido.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s