Canções Notáveis – “Hurricane”, Bob Dylan (1975)

Em 1975, Bob Dylan já era uma lenda. Com 16 álbuns lançados – incluindo clássicos absolutos da história do rock como “Highway 61 Revisited” (1965) e “Blood on The Tracks” (1975) – Dylan passou a ocupar uma posição em que poderia fazer o que quisesse, falar o que quisesse, e o mundo estaria lá, pronto para ouví-lo. O meio da década de 70 também é um período de adaptações importantes – depois de passar anos tocando com várias bandas, Dylan procurava um elenco fixo de músicos, necessidade sentida após assistir um show de Patti Smith em Nova Iorque.

Nesse contexto de auge e adaptações, aversão à fama mas necessidade de conviver com ela, Dylan lança seu décimo sétimo disco de estúdio, “Desire” (1976), cuja primeira faixa – “Hurricane” – é certamente uma de suas canções mais notáveis e marcantes.

“Hurricane” é um fino exemplo de uma canção que, pra ser compreendida, precisa de um contexto. Sua estrutura simples – base de violão acompanhada por um violino, com Dylan entoando um canto folk falado – dá suporte a uma ácida canção de protesto, um manifesto sobre a injustiça cometida a Rubin Carter, o “Hurricane”, lutador de boxe acusado por triplo homicídio em 1966. Durante todo o processo criminal, Carter alegou inocência, apesar das provas irrefutáveis que se viravam contra ele.

Foi no momento em que as provas começaram a se mostrar controversas, e depois de Dylan ler a biografia de Carter e o visitado na prisão, que o cantor se revoltou com a situação do lutador. Embora tivesse vontade de utilizar sua imagem para pedir um julgamento justo à Carter, Dylan não tinha ideias de como materializar esse desejo em uma canção. Assim, o cantor optou não por cantarolar alguns versos, mas sim apenas contar a história, dando à canção esse aspecto de “vocal cantado”, preso à uma mesma estrutura melódica do início ao fim da canção. Hurricane é, antes de tudo, um convite à revolta contra uma sociedade que vitimiza um homem de bem.

Mesmo após Dylan reescrevê-la, a letra continua ácida. A letra cospe críticas à corrupção da polícia, da corte e do racismo de sua sociedade, principal razão para a prisão de Carter na opinião de Bob Dylan: “If you’re black you might as well not show up on the street. Unless you wanna draw the heat”; “Couldn’t help but make me feel ashamed to live in a land where justice is a game”. Não há mistérios, nem rodeios. Mesmo após suavizada (a gravadora solicitou por temer processos), a canção aponta o dedo na cara dos responsáveis o tempo todo.

Apesar da canção ter contribuído para publicizar a história de Carter, seu inferno astral estava longe de terminar. Em um segundo julgamento, os advogados de Carter não conseguiram convencer o Juri, que manteve a sentença contra o lutador. Apenas em 1988, após 22 anos de prisão, que a corte americana retirou todas as acusações de Carter. O grito por justiça de Dylan ecoou por dez anos até ser atendido.

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