Livro: “Adele”, Chas Newkey-Burden

Durante muito tempo me choquei com o fato de que diversos artistas com apenas um ou dois discos nas lojas e sucesso instantâneo já eram rapidamente estampados em capas de livros nas livrarias. Sempre imaginava que não haveria tanta história pra contar, pois o artista ainda não passara por suas maiores provações (num mundo pop ávido por novidades talvez não seja tão difícil chegar ao estrelato do que em tempos passados) e, pensamento mais clichê impossível, isso era apenas uma ação marqueteira.

Recentemente, a esquiva deu lugar à curiosidade e a constatação de que os argumentos anteriores não procediam. Afinal, o que não é feito pra vender nos dias de hoje? Mesmo que o artista pense somente na sua arte, existe um exército de funcionários encarregados de pensar na melhor maneira de expor aquele produto ao mercado (empresários, gravadoras). Além do mais, pensar na história de alguém em termos quantitativos (passagem de anos) é subordinar uma série de outros fatores à uma fórmula tradicional. Afinal de contas, a visão que se tem sobre a Revolução Francesa não impede que um estudo das aspirações burguesas ao longo da monarquia constitucional também não seja proveitoso.

Ignorei, contudo, um problema estampado na aba do livro “Adele”, de Chas Newkey-Burden, resumido na seguinte expressão: “é um biógrafo de celebridades, e já escreveu as biografias de Amy Winehouse, Simon Cowell, Justin Bieber (…) e Stephanie Meyer”. Cobrir tantos artistas desconhecidos 5 anos atrás (ou caras de bastidores como Cowell) em tão pouco tempo acaba denotando em um simples resultado: superficialidade e apego a uma fórmula. E infelizmente é esse aspecto que dá a tônica do livro sobre Adele.

Ao longo das curtas 195 páginas, o autor desenvolve a crônica de uma garota simples e comum que descobriu o estrelato exatamente por ser assim, em um mundo em que imagem, purpurina, corpo perfeito e melodias dançantes parecem estar tão em moda. Ao ser entrevistada, seu bom humor e sinceridade contagiam todos ao seu redor. Suas canções tristes encantam e lacrimejam milhões de olhos, além dos da própria cantora. Apesar do sucesso, ela se mantém com hábitos simples, como se reunir com as amigas para tomar cidra no parque depois de uma maratona de shows esgotados nos Estados Unidos.

Claro que não necessariamente há inverdades, mas o tom super protetor do texto é deveras exagerado, como no grande esforço em inocentar a garota após uma declaração sobre impostos que gerou repercussões negativas. Ou em trechos do tipo “Adele sendo Adele, impossível não gostar”. O tom do texto, assim, é dirigido apenas aos fãs mais devotos, e não ao curioso em música em geral.

Apesar do autor ter desenvolvido uma pesquisa, ela limitou-se apenas a jornais e entrevistas para outros meios, não havendo entrevistas com a própria para o livro. Assim, o texto não consegue trazer histórias sobre o processo de composição das canções de Adele ou outras histórias que entretêm o leitor (a única do livro é o primeiro encontro com Justin Timberlake, onde, após perceber de quem se tratava, ela começou a dar altos gritos, típicos de uma fã). Existe também um esforço mínimo de delimitação do contexto em que Adele se encontra, talvez consequência da sua direção ao público-alvo (ou, por abordar um tema tão recente, o autor optou por não se esforçar em descrever o mundo em que pertencemos).

O livro, assim, fica devendo por insistir no estigma da boa moça e pela pesquisa superficial, sendo recomendado apenas por quem esteja mais interessado em ver sua idolatria compartilhada. Ou talvez como um ensaio a serviço de uma pesquisa mais aprofundada para uma futura obra.

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