Canções Notáveis – “Sunday Bloody Sunday”, U2 (1983)

Belfast, Irlanda do Norte, dezembro de 1982. O U2, jovem banda de Dublin, capital da outra Irlanda, fazia uma apresentação para 3 mil pessoas, um show lotado para as proporções do modesto Maysfield Hall. O público cantava todas as canções junto com o Bono, até que em um momento o cantor chamou a atenção de todos: “Nós vamos tocar uma nova canção hoje, e ela é sobre a Irlanda do Norte. Essa não é uma canção sobre rebeldia, e se vocês não gostarem dela, prometemos não tocá-la mais em Belfast”. Edge, Adam e Larry se entreolharam. O cantor de sua banda não havia combinado nada com eles.

O público imediatamente se calou, pois entendia que a canção era sobre os conflitos entre católicos e protestantes que, menos de dez anos atrás, geraram ondas de terror e violência. A impressão é confirmada quando começa uma bateria rítmica que simula o som de um exército em marcha, e a guitarra simulando uma ambulância. No meio da parede sonora, Bono começa a canção com um lamento: “I can’t believe the news today, i can’t close my eyes and make it go away”.

O público acompanhou a canção calado, rostos sérios. Mesmo o próprio Bono se perguntava se havia sido a coisa certa a fazer, ao invés de seguir o set combinado. Mas, ao final da canção, a chuva de aplausos aliviou a todos. O público se mostrava estupefato.

Assim foi a primeira vez em que “Sunday Bloody Sunday”, hino da banda irlandesa do U2, se mostrou ao mundo. É uma canção pós-punk com elementos de rebeldia e de tristeza que exigem a atenção do ouvinte do início ao fim à sua mensagem. Uma espécie de manifesto aliada a uma tristeza acerca da pertinência da canção nos dias de hoje: “How long? How long must we sing this song?”. A canção passa então para a descrição de um campo de batalha, com garrafas quebradas nos pés das crianças e corpos largados na estrada. A batalha acabou, mas quem ganhou? A panacéia da batalha continua dividindo pais e filhos e ninguém consegue entender o que está acontecendo.

Entre lamentos e chamadas para a batalha, a canção encerra com um lampejo de esperança: “The real battle had yet begun… To claim the victory that Jesus won… On a Sunday Bloody Sunday”. “Sunday Bloody Sunday” poderia até mesmo ser considerada uma canção cristã, ao depositar todas as frustrações de um mundo condenado na crença da misericórdia de Deus, ideia utilizada pela banda em diversas canções do seu álbum imediatamente anterior, “October” (1981). A canção é bastante bruta se comparada a outros hinos de protesto (como os de Bob Dylan, pra citar um exemplo), e ainda um atestado da imaturidade de uma banda que tentava crescer. Mas poucas canções crescem tanto quando interpretadas com paixão para 90 mil pessoas. E poucas bandas sabem tocar ao vivo tão bem quanto o U2.

A canção teve um ápice emocional em 1987 (segundo vídeo do post). Uma bomba explodiu em Enniskillen (Irlanda do Norte), matando crianças e avôs que estavam ao redor de uma estátua aonde a bomba foi plantada. No dia seguinte, um Bono furioso subiu ao palco e discursou sobre a insanidade das “glória da guerra”. A performance foi registrada e lançada no filme “Rattle And Hum”, e a emoção foi tão desgastante que a banda a abandonou. O U2 não a tocaria com toda a banda até 2001. Nesse intervalo, apareceu apenas em 1997, em uma versão minimalista tocada e cantada apenas pelo guitarrista The Edge, tom baixo, melancólica (terceiro vídeo do post).

A canção ressurgiu com força na Elevation Tour (2001), uma turnê de enorme sucesso em que a banda voltou com força à mídia após o bem-sucedido “All That You Can’t Leave Behind” (2000). O clima nervoso e melancólico deu lugar à celebração, e “Sunday Bloody Sunday” passou a significar um grito por paz, um triunfo de uma paz que grita mais forte do que a guerra. Até hoje é uma das canções mais queridas pela banda e seu público. Claro que a melancolia ainda é marca de “Sunday Bloody Sunday”, e ela será sempre essa mistura de sentimentos. Mas também é um grito eufórico de esperança para esses nossos tempos loucos.

Publicado em U2

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