Revisitando um Clássico: Yes – Close To The Edge (1972)

Entre o final dos anos 60 e início dos anos 70, uma cena alternativa começou a ganhar musculatura em diversos clubes noturnos de Londres. Cansados da fórmula pop de verso-refrão-verso-refrão em pouco mais de 3 minutos, diversos grupos começaram a se permitir a liberação dessas amarras, construindo canções atmosféricas que se estendiam por 10, 20 ou até 40 minutos. Naturalmente, o consumo de substâncias alucinógenas como o LSD – tão em voga na época – circulava com bastante força nesses meios, como uma espécie de suporte para a viagem psicodélica procurada na música. O esgotamento da fórmula pop no final dos anos 60 impulsionou esse movimento para o mainstream, gerando assim os principais nomes do chamado “rock progressivo”.

A categoria, contudo, já nasceu problemática, por duas razões: 1. até hoje existe a dificuldade de definir o que é o rock progressivo, com grupos muito distintos entre si dentro da mesma cerca. 2. Existe uma certa ficcionalidade artificial em cada grande movimento (exemplo, construções do tipo “o grunge acabou com o hard rock”), mas no progressivo o problema se agrava. Parece ser um certo consenso de que praticamente nenhuma banda é progressiva em toda a carreira. Como então ver o movimento como tal se mesmo seus principais nomes como um todo não se encaixam nele?

Eis uma problemática interessante, embora não seja o foco desse texto (o autor inclusive não se sente gabaritado para falar de um estilo tão complexo como o progressivo). Antes de se tornar problemático, o estilo atingiu um pico na década de 70, e “Close to The Edge” é um dos principais motivos disso. Embora não seja o maior sucesso comercial da banda (tarefa que cabe à “90125”, lançado nos difíceis anos 80), manteve-se por 32 semanas na parada da Billboard e foi o único álbum da banda a atingir o número 1 na Holanda. Até hoje é constantemente apontado como o primeiro em listas de “melhores álbuns progressivos”.

“Close To The Edge”, portanto, conseguiu sobreviver ao avanço impiedoso do tempo e, se não é lembrado como um “Sargent Pepper’s” ou um “Exile On Main St” ou mesmo um “Dark Side Of The Moon” (aliás, o Pink Floyd é um exemplo emblemático da fragilidade da definição de progressivo), por outro se tornou um testemunho de uma época em que o progressivo era a maior definição do sofisticado, e talvez o exemplo mais bem acabado do estilo.

“Close to The Edge” é baseado no livro Hermann Herse “Siddharta”, uma adaptação da história do príncipe indiano que abandona luxo e ostentação atrás da elevação espiritual. As canções revisitam o momento em que o personagem de Hermann acorda próximo ao abismo do rio. A capa do álbum, contudo, parece reproduzir a ideia com um aspecto bem mais sombrio, com sua tonalidade mudando de verde para negro. Elevação espiritual parece contrastar com a escuridão do sentido inverso.

O virtuosismo técnico impressiona. A primeira faixa, um épico de 17 minutos, é toda construída num imenso solo do guitarrista Steve Howe, uma base competente do baixista Chris Squire e o virtuosismo da voz de Jon Anderson, na opinião do autor um dos melhores cantores que já teve oportunidade de ouvir. Certamente a canção – assim como o resto do álbum – pode ser de difícil ingestão para o público não acostumado, especialmente nos dias de hoje em que o consumo de música parece cada vez mais superficial.

“And You And I”, segunda faixa, é uma balada com cerca de 10 minutos de duração, também baseada na história de Siddharta. Sua base de violão desemboca numa cobertura de teclados, que se desvanece para ser construída novamente. “Siberian Kathu” faz o papel de apagar das luzes do palco, uma melodia construída a partir das linhas de baixo de Squire. Não se sabe ao certo sobre o que a canção fala, mas alguns fãs apontam se basear em um grupo xamanista siberiano.

3 faixas, com uma duração aproximada de 35 minutos. “Close To The Edge” pode assustar e até gerar certa repulsa em um mundo que não tem mais tempo de parar para apreciar discos, mas continua sendo um dos mais finos retratos de um contexto em que entendia-se que, para a música avançar, era necessário aumentar a técnica e fugir das amarras tradicionais do formato pop.

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