Alceu Valença – Coração Bobo (1980)

“Coração Bobo” é um dos diversos álbuns que lamento não ter em minha coleção. Aliás, não só esse, mas praticamente todos os álbuns desse artista estão esgotados, dando margem para que muitos vendedores via mercado livre cobrem verdadeiros estorvos por álbum.

Além da falha para com os ávidos colecionadores de discos, a falha também é para a música popular brasileira. Acredito severamente que Alceu Valença é um artista genial, por conseguir reunir de forma tão impecável uma mistura de música nordestina (baião, forró) com toques de rock e de folk. Suas músicas parecem fornecer uma espécie de estrutura que se adapta facilmente a qualquer estilo onde se busca encaixá-la, e a faixa-título é um ótimo exemplo disso. Sugiro buscar no YouTube um cover bastante rocker feito por estudantes universitários.

“Coração Bobo” é o sexto disco oficial de Alceu Valença, embora seja apenas o quarto em que assina todas as faixas (sua estréia foi em um álbum conjunto com Geraldo Azevedo e em uma trilha sonora chamada “A Noite do Espantalho”). Lançado em 1980, foi o álbum que o projetou para a cena nacional, dando início a uma série de álbuns que seriam massivamente vendidos e aclamados. “Coração Bobo”, de certa forma, é um reencontro com sua terra natal, Pernambuco, um exercício de reflexão acerca do que lhe é diferente e do que lhe é familiar.

Até então, Alceu havia fixado residência na metrópole do Rio de Janeiro. Sua carreira começou a fazer ecos na França, e pra lá ele embarcou para realizar uma série de shows em festivais. Ao retornar, seus últimos discos já não tocavam nas rádios, e era preciso apostar todas as fichas no novo disco. “Coração Bobo”, portanto, não é apenas um voltar o olhar para a terra natal, mas também representa uma ideia de recomeço, um sentimento de retorno que só é possível depois de se aventurar ao que não é familiar.

O álbum inicia com “Coração bobo”, uma canção construída a partir de um simples riff de violão para desembocar num refrão regido pelo Acordeon. Sua letra parece sugerir uma desilusão amorosa: “meu coração tá batendo, como quem diz não tem jeito (…) O coração dos aflitos pipoca dentro do peito (…) A gente se ilude dizendo, ‘já não há mais coração'”. A canção é, no entanto, uma original homenagem a seu time – o Náutico – que por anos destroçou o coração de seu torcedor músico ao perder diversas finais consecutivas do campeonato pernambucano de futebol para o Santa Cruz. A gente se ilude dizendo, “já não há mais coração”, mas no ano seguinte, lá estamos nós de novo. Na opinião do autor, uma obra-prima.

O restante o álbum é bastante equilibrado, em geral com letras curtas e diversas repetições de estrofes. Os destaques ficam com o forró com toques de folk-rock (veja a mistura de novo) “Vem Morena”. A sinistra “Solibar” e seu relato da solidão das grandes cidades, em cima de uma trilha instrumental que se encaixaria perfeitamente em qualquer filme de terror. O xote “Cintura Fina” que, assim como Vem Morena, utiliza-se de versos rápidos para criar a ginga necessária para a canção. “Como se eu fosse um faquir” é um forró mais tradicional, construído em volta do acordeon, mais cadenciada que as anteriores (com exceção de Solibar). “Na Primeira Manhã” é ouro clássico da carreira de Alceu, uma canção melancólica sobre o recorrente tema da solidão no contexto urbano. “A Moça E O Povo” encerra o disco com uma certa melancolia, um relato de uma moça bonita envolta no grande muro de concreto que é a cidade moderna: “Ai a solidão das capitais é um não vou, não vens, não vais, ela me olhava e não me via”.

“Coração Bobo” pode ser sugerido para quem se interessar em um estilo de música mais regionalista e, principalmente, para quem está cada vez mais cansado das classificações que apenas seccionam e criam absurdos artificialismos para definir o que é bom e o que é ruim. É também uma interessante porta de entrada para o artista, visto que o álbum é imediatamente seguido por “Cavalo de Pau” (1982) e “Anjo Avesso” (1983), responsáveis pelos maiores hits da carreira de Alceu até hoje.

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One thought on “Alceu Valença – Coração Bobo (1980)

  1. Caramba… ouço a faixa “Coração Bobo” há anos e nunca tinha reparado que é uma homenagem ao Clube Náutico Capibaribe… Hoje eu estava escutando esta música e finalmente reparei num detalhe: “o coração dos aflitos”…

    Ai, notei que a frase não é “o coração dos aflitos” e sim “o coração dos Aflitos”, do Estádio dos Aflitos, casa do Náutico.

    Parei, pesquisei um pouco e me aparece este texto explicando tudo…

    Abraço,

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