Revisitando um Clássico: Skank – Calango (1994)

Existem determinados álbuns que criam a estranha sensação de um “deja-vu musical”. Você o compra e percebe que conhece a maioria das canções, independente de possuir qualquer background anterior com aquela banda. Cria-se a estranha sensação de conhecer um álbum mesmo sem conhecê-lo, pois se a boca acompanha as letras, ela não entende o contexto, a “liga” que amarra aquelas canções em uma única coleção. Calango, segundo álbum da banda mineira Skank (uma das minhas preferidas) é um exemplo perfeito disso pois, se por um lado canções como “Jackie Tequila”, “Esmola” e “Pacato Cidadão” parecem ser overplayed, sua mensagem parece mudar quando executadas juntas com suas “irmãs”.

Aliás, tenho a impressão de que, não apenas o Calango, mas o próprio Skank carrega esse paradoxo de ser super conhecido e ao mesmo tempo desconhecido. A quantidade esmagadora de hits que conseguiram produzir exigiram muito espaço, fincaram raízes em seus shows e acabaram por esconder a enorme flexibilidade do grupo em se adaptar a diversas tendências musicais, como o psicodelismo em Cosmotron e Carrossel e o regionalismo da parte “não-conhecida” do próprio Calango, experimentalismos esses que ficaram restringidos apenas aos álbuns.

É por esse paradoxo que velhas canções conseguem realizar novas descobertas. Calango foi o disco em que o Skank conseguiu apresentar a sonoridade ensaiada em seu disco de estréia de forma mais consistente. Existe um quê de influência do Paralamas, devido à mistura de rock com ska, reggae e até mesmo samba, naipes de metais em quase todas as canções e flertes com sons regionalistas. Mas a banda dá o seu toque acrescentando um tom irreverente, clima festivo e toques de comicidade tanto nas letras quanto na interpretação.

É o caso da canção de abertura “Amolação” e “A Cerca”. A primeira aborda as dificuldades de um bóia-fria que suspeita de infidelidade de sua esposa. A segunda (na opinião do autor uma obra-prima esquecida), os conflitos de terra entre a impotência do sertanejo e a força econômica do fazendeiro que cerca terras. Temas seríssimos, inseridas em uma forma suingada de reggae, metais e irreverência vocal de Samuel Rosa. Existe a intenção na letra de abordar a dura realidade brasileira, e até mesmo de transmitir uma mensagem política (vide o clipe de “A Cerca”, disponível abaixo). Mas a estrutura melódica tem objetivo apenas de entreter e chega a provocar risos. Eis a fórmula dos primeiros anos do Skank.

Embora o álbum tenha o reggae como elemento centralizador (praticamente todas as faixas possuem aquele ritmo característico na guitarra),  o álbum atira para diversas frentes: desde o reggae ortodoxo (Jackie Tequila, Te Ver), passando pela surf music (O Beijo E A Reza), rock (É Proibido Fumar, regravação de Roberto Carlos) e samba (Chega disso!).

O álbum, contudo, parece ter um problema na ordem das canções. Se a primeira metade parece acertada, por outro lado é estranho a sequência encerrar com “Pacato Cidadão”. Talvez poderia reduzir a sensação de perda de força em seu final (um clichê em se tratando de álbuns) trazendo Te Ver mais pra baixo e jogando Pacato Cidadão mais para cima.

Por fim, o esclarecimento do porquê de Calango ser um clássico: o “deja-vu musical” já parece resolver o problema, pois metade das canções são conhecidas por qualquer brasileiro que viva em um ambiente urbano e tenha um mínimo interesse em música. A segunda razão é interna, por Calango (ao lado de Cosmotron, de 2003) ser um álbum-chave de uma das bandas mais populares do país. Sua proposta acabou por montar a base em que a banda se apoiou para explodir com os dois álbuns seguintes, “O Samba Poconé” (1996) e “Siderado” (1998). Até o senso de comodismo musical ser espantado e tudo mudar a partir de “Maquinarama” (2000).

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