Radiohead – Kid A (2000)

Há tempos tenho pensado em escrever algo sobre o Radiohead. Com mais de um mês de blog uma das minhas bandas favoritas ainda não deu as caras por aqui. O motivo é razoavelmente simples: não sei como começar um post sobre o Radiohead.

É mais ou menos fácil analisar a qualidade lírica, instrumental e vocal de um álbum. Mas como aplicar estas categorias a letras compostas em um estilo dadaísta (algumas canções da banda foram escritas através de um sorteio de palavras)? Ou em faixas onde a voz de Yorke é tão alterada por efeitos digitais que sequer temos certeza de que aquele é mesmo o cantor? E em um álbum cheio de recursos eletrônicos no qual mal conseguimos escutar as guitarras?

Kid A (2000) foi chamado pela crítica de “um suicídio comercial”. Ainda assim, obteve notas altíssimas em reviews sendo aclamado de maneira quase homogênea no mundo inteiro.  E é mesmo um álbum indigesto – praticamente o oposto de um A Rush of Blood to the Head, por exemplo, onde criamos empatia imediata pela maioria das canções. Aqui, não criamos. Pelo contrário! Temos antipatia pela maioria das faixas que, em certos momentos, são tão caóticas que mal conseguimos saber o que está acontecendo. Então acho que a pergunta aqui é: por que, então, amamos o Kid A?

Kid é um álbum estranho até para os padrões do Radiohead. A ausência quase completa de guitarras principalmente na primeira metade do disco é assustadora. As vozes robóticas, as letras complexas, os sintetizadores repetitivos – nada contribui para que Kid A arrebate admiradores. Mas você vai se acostumando com as excentricidades da sonoridade, e logo se torna dependente da estranha viagem que o álbum proporciona. Kid é indigesto porque não é uma refeição, e sim uma droga. Uma droga deliciosa.

Na verdade, Kid não é meu trabalho favorito da banda. Na verdade, consigo compreender quando alguém me diz que não gosta do álbum. Mas quando penso que abrir mão deste disco é deixar de lado canções inspiradíssimas como Everything in Its Right Place, How to Disappear Completely, Optimistic e Idioteque me convenço de que posso aceitar e abraçar toda sua estranheza. Somos todos, afinal, estranhos – todos soamos um pouco deslocados no mundo, como um bom projeto que deu errado. Kid A é um pouco sobre sobre este nosso lado feio e burlesco que temos tanta dificuldade de encarar.

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