Dido – Safe Trip Home (2008)

Novembro de 2008 viu o nascimento de “Safe Trip Home”, terceiro e (até agora) último disco da cantora britânica Dido. Sua doce voz havia encantado a todos no início da década anterior, com canções convincentes e agradáveis do naipe de “Thank You” e “White Flag”. O álbum encerrou um hiato de cinco anos desde o lançamento do excelente “Life For Rent” (2003).

Safe Trip Home, sob diversos aspectos, é um álbum difícil. Exige diversas execuções ao seu ouvinte, o conhecimento do seu background, as inspirações que o levou a nascer. O álbum é uma espécie de acerto de contas entre a cantora e o luto ocasionado pela morte de seu pai. Sua capa reproduz a fotografia do astronauta Bruce McCandless em missão em 1984 (a cantora chegou a ser processada pelo mesmo, alegando não ter recebido os devidos direitos), e parece causar uma sensação de solidão, de impotência em relação a coisas que acontecem ao seu redor sem exigir nenhum tipo de relevância de sua parte.

Assim como na capa, o disco possui uma tensão que o percorre de ponta a ponta. Se nos álbuns anteriores, os sintetizadores e órgãos formavam melodias doces e delicadas para a cantora discorrer sobre o amor de forma apaixonada (There will be no white flag above my door/ I’m in love and always will be), aqui os arranjos são à base de violão, bateria e tímida programação de teclados. A voz suave agora carrega toques de melancolia e até de cinismo. Safe Trip Home, portanto, não é aquele tipo de álbum leve que se põe para tocar em casa numa tarde de sol: seu execução combina mais com um clima de chuva.

Se o álbum carrega o peso do estado de espírito da cantora, as letras canções se dividem em dois temas: amor e luto. Em relação ao primeiro, não há mais a entrega apaixonada dos álbuns anteriores. Em “Don’t Believe In Love”, a cantora parece se convencer de que, se não acreditar no amor, nada será complicado (ou será que, ao invés de cinismo, a letra denota insegurança?). Em “It Comes And It Goes”, o sentimento vai e volta. “Let’s Do The Things We Normally Do” talvez tenha a letra mais inspirada do álbum (junto com “Grafton Street”), um casal que busca manter as aparências apesar do definhamento de sua relação – “don’t hold my hand for longer than you need to”.

Às canções sobre o luto vão desde a mensagem clara (“The Day Before The Day”) ao caráter lúdico (“Grafton Street”). Ao longo das canções, a cantora lamenta não se sentir em paz, não poder retornar ao clima familiar que a presença de seu pai a fazia sentir – “now i miss you, now i want you, you’re not coming back” (Quiet Times), “no one can brings us the peace we had in Grafton Street” (Grafton Street). “The Day Before The Day” é a que mais sintetiza a dor da cantora, trazendo o ápice da tensão. Confesso que desde 2008 não a ouvia inteira, devido ao desconforto que me traz.

“Northern Skies”, a canção que fecha o disco, parece explicar o que é apenas sugerido no álbum. Em quase todas as canções sobre seu pai, Dido parece estar olhando para trás – lamentando o que não mais terá. É como se o álbum fosse a sua maneira de descarregar sua dor e aflição para, assim, poder seguir com sua vida (o que parece ter acontecido, visto que Dido não gravou mais até então). Safe Trip Home, assim, parece ser o abandono de carga necessário para que o barco possa voltar em segurança.

O álbum pode desagradar quem preferia o clima mais leve dos discos anteriores, pois seu clima mais sóbrio e tenso exige um estado de espírito equivalente ou mesmo paralelo, o que dificulta bastante a sua execução até o fim em situações corriqueiras ou cotidianas. Talvez algumas faixas seriam desnecessárias, caso das duas últimas (especialmente “Northern Slkies”, que se arrasta em oito minutos sem propriamente acontecer muita coisa). Talvez ele seja o mais querido entre alguns admiradores da cantora exatamente pela sua diferença. Ou talvez seja o acidente inevitável da necessidade intrínseca da artista de se reinventar.

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