Livro: “Nos Bastidores do Pink Floyd”, Mark Blake

Existe algo interessante na história da música e, mais especificamente do rock, que poucas pessoas notam mas que ajuda a compreender como funciona o mercado da música. Embora a cena americana seja a mais ampla, diversa e almejada (afinal de contas, a conquista do mercado americano é a conquista do mundo), parece ser a cena inglesa a maior produtora dos chamados “titãs” da música. No pop, temos Elton John. Genesis e Yes no progressivo. Mais recentemente, o Coldplay parece ser a banda de maior popularidade. Mais recente ainda, o sucesso fenomenal de Adele.

É da Inglaterra também os integrantes do que chamo por “monte olimpo” do rock: os Beatles, Stones, Led Zeppelin, Queen e Pink Floyd. Cada um com sua escola, com seu estilo distinto. Muito têm se falado dessas bandas, seus discos exaustivamente discutidos, livros publicados. Sendo assim, o que uma nova obra poderia acrescentar no legado de cada uma dessas?

No caso específico do Floyd, o livro de Mark Blake é vendido como o revelador da “história secreta” da banda. A sua sinopse promete uma riqueza de detalhes e um mergulho nos momentos mais contraditórios e polêmicos de sua trajetória. Considerando as histórias quase míticas das brigas entre os integrantes e as farpas dirigidas entre eles em público, o livro não promete pouca coisa.

Infelizmente o livro, originalmente publicado em 2007, chega ao Brasil já datado. A morte do tecladista Richard Wright em 2008 sepulta diversos questionamentos que Blake usa para terminar seu texto, carregadas de uma tímida esperança de retorno do grupo.

A obra, desde seu lançamento lá fora, têm sido apontada como uma das responsáveis pela atual tendência de valorização de Syd Barrett e seu legado dentro da banda. Aqui ele não é apenas seu fundador, mas também o fantasma que a perseguiu até que o grupo conseguisse a redenção com “The Dark Side Of The Moon”, e mesmo após esse período. Confesso que não sou muito simpático a essa corrente pois, se é evidente o legado de Syd (que junto com Ian Curtis, Jim Morrison e outros ganhou o status de lenda), também é evidente que o Pink Floyd chegou aos nossos ouvidos pelos próprios méritos de David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright. Reverenciar a figura de Syd em excesso faz que, com suas 448 páginas, o livro só abandone o período “Piper At The Gates of Dawn” lá pra página 150, quase um terço do livro dedicado a um importante, mas apenas início de carreira. O documentário “Pink Floyd: Behind The Wall” também faz algo semelhante: com duração de 90 minutos, o período de Syd à frente do Floyd foi abordado por longos 60 minutos.

O livro de fato entrega a riqueza de detalhes tão alarmada. Fica bem claro a profundidade da pesquisa de Mark Blake ao dissertar sobre o período de Manchester e de Londres, antes do estrelato. Diversos nomes são citados, depoimentos relatados. Essa riqueza de detalhes, contudo, acaba atrapalhando a obra, tornando-a enfadonha em algumas partes. Fica a impressão de que Blake passa tempo demais dissertando sobre grupos de amigos que têm apenas um pequeno papel no cotidiano da banda, ou só a acompanharam de longe.

Blake também costura seus personagens a partir de determinados comportamentos já estabelecidos desde o início: Roger Waters é o cara controlador, interessado na mensagem que a banda passa pelas letras, ranzinza e de difícil convivência (Blake revela que Waters foi o primeiro a sugerir a demissão de Syd, um eco do que aconteceria dez anos mais tarde com Wright ao longo das gravações de “The Wall”). David Gilmour é mais interessado na música, mas sua preguiça o impede de contribuir com mais composições. Richard Wright é doce e gentil, mas muito calado e isca fácil para as grosserias de Waters. Finalmente, Nick Mason é o diplomata do grupo, atuando como intermediador dos problemas da banda até onde foi possível. Personalidades tão distintas acabariam chocando-se entre si, e tudo começa a ir ladeira abaixo após o tão almejado reconhecimento pós “Dark Side”.

O foco é basicamente as interações entre a banda e suas namoradas, esposas, amigos e público, deixando de lado um aspecto simples, mas que todo fã gosta de saber: o processo de composição das músicas. Com exceção dos “Another Brick In The Wall Part II”, “Confortably Numb” e uma ou outra composição, não existem histórias sobre como aquela canção foi criada ou por quais mudanças elas passaram.

Por fim, a seção final, que aborda a turnê do álbum “The Division Bell” (1994) parece meio apressada, com apenas algumas páginas dedicadas a isso. Fica a impressão de que o período, posterior às tão atraentes farpas e brigas entre os integrantes, não interessa tanto ao faro investigativo do autor.

As diversas críticas relatadas podem dar a impressão de que o livro não é satisfatório, o que não é verdadeiro. Parece ser desnecessário citar as óbvias vantagens de um livro que disserta sobre uma das maiores bandas que já existiram. Essas são, ao meu ver, os únicos aspectos em que o livro poderia se sair melhor.

Com isso, desde o final de março o mercado brasileiro têm mais uma bela obra sobre o Pink Floyd. Considerando que a banda nunca teve um fim declarado (aliás, quando ela acabou? Quando Waters saiu da banda? Em 1994? 1997? 2005?), e que efervescências e catarses geradas pelas tímidas reconciliações entre Gilmour e Waters os mantém na mídia até hoje, parece plausível afirmar que o Pink Floyd está longe de ser um assunto do passado.

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