Fresno – Cemitério das Boas Intenções (2011)

Existem algumas bandas que surpreendem a gente. O primeiro contato, geralmente, é o pior possível. A sonoridade faz parte da cena que você rejeita, a canção na rádio é estereotipada e sem graça e, para complicar ainda mais, a banda está em todos os lugares. Mesmo não suportando o Fresno, acabei assistindo a um show deles, acredito, em 2008, consequência da decisão de acompanhar um amigo que iria sozinho. Dois anos depois, eis que vejo a banda novamente, abrindo para o Bon Jovi.

Minha expectativa naquela segunda apresentação era zero, mas aí vieram as performances das canções de seu então recente álbum, “Revanche”. As canções eram mais pesadas, mais densas, riffs interessantes, linhas de baixo competentes. De repente aquela banda odiável mostrava uma outra faceta, uma competência que me parecia ter escapado nos anos anteriores. Aí veio “Cemitério das Boas Intenções”, EP lançado pela banda no final do ano passado, e tudo mudou.

É uma outra fase para o Fresno. Insatisfeita, a banda decidiu rescindir o contato com a Universal. Em certas entrevistas, o vocalista Lucas Silveira chegou a afirmar que a volta do Fresno ao independente era uma garantia de que agora poderiam fazer o que quisessem sem sofrer as interferências costumeiras dentro de uma gravadora. O resultado mais palpável dessa libertação institucional é um EP, com 4 canções, 3 delas ineditas.

A primeira canção, “Crocodilia” é um petardo, uma pesadíssima canção. Atribui-se ao peso tanto os bons riffs da dupla de guitarristas Lucas e Gustavo, mas principalmente a levada do baixo de Rodrigo Tavares, hoje um ex-membro da banda. O destaque de seu papel também é mantido em “A Gente Morre Sozinho”, fantástica canção com quase 6 minutos de várias subidas e descidas, momentos agoniantes gerados pelas guitarras intercalados por intervalos mais brandos. Aliás, o EP comprova que Rodrigo Tavares é um grande baixista, pela competência de suas bases com as quais os demais integrantes puderam se basear. O eventual substituto da Fresno terá em substituí-lo um grande desafio.

“Não Vou Mais” é uma canção, digamos, mais tradicional, em relação ao catálogo da banda. Enquanto as outras duas têm um corpo hard rock, essa já têm uma sonoridade mais indie. O EP encerra-se com uma versão mais sossegada de “Relato de um Homem de Bom Coração” – canção de “Revanche” (2010), com sua letra quase que autobiográfica, exceção em todo o disco.

Exceção porque, em se tratando das letras, o disco tem um aspecto sombrio. Todas de certa forma abordam um mesmo conteúdo, que é a extrema dificuldade em acreditar na redenção e salvação por meio da religião, quando a sua experiência de vida lhe diz o contrário: “Não acredito em inferno, é só uma ilusão. O sofrimento é eterno”, Lucas brada em “Crocodilia”, raciocínio que prossegue em “A Gente Morre Sozinho”:  “O pesadelo é real? (Cadê seu Deus?). Quando estamos sozinhos, não existe o bem e o mal”. O sentimento de desilusão e desesperança foi a solução encontrada pela banda para acompanhar o ritmo das guitarras.

A mixagem não é a melhor, mas não compromete. “A gente não morre sozinho” é bastante barulhenta, tendo uma espécie de chiado bem perceptível no fone de ouvido mas, seja falha ou recurso proposital, acaba contribuindo para o clima da canção. Lucas se esforça para que sua voz relativamente suave se encaixe nas barulhentas bases, mas ainda fica a sensação de que uma voz mais grossa encaixaria melhor.

“Cemitério das Boas Intenções” é, portanto, uma interessante espiada nas pretensões da banda após o rompimento de seu contrato com a gravadora, e um bom alerta de que a produção da Fresno merece ser acompanhada com atenção.

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