Roxette – Travelling (2012)

Embora possa não reconhecer o nome, certamente você já ouviu Roxette. Provavelmente alguma balada romântica oitentista que os seus tios, jovens no início dos anos 1990, adoram. Talvez esse quadro não seja dos mais incentivadores a conhecer o duo sueco formado por Per Gressle e Marie Fredriksson, mas basta escutar qualquer álbum para perceber que as canções são mais do que simples velharias destinadas apenas a festas retrô. Existe uma música pop radiofônica de muita qualidade ali, algo que encaixaria perfeitamente na programação das rádios mas que, ao mesmo tempo, poderia gerar estranhamento.

Pra entender essa relação paradoxal de similaridade e autenticidade, “Travelling”, novíssimo álbum da banda (chegou aqui em Brasília somente nessa semana), dá uma boa análise. O primeiro single, “It’s Possible (version one)”, encerra o seu refrão com a frase “when you give that look, I just wanna oh oh oh”. Em “Touched By The Hand of God”, Marie canta sobre estar “touched by the power of love”. Em tempos de música pop altamente sensualizada (a ponto de banalizá-la), a música do Roxette parece carregar uma ingenuidade que pode soar careta à primeira vista, mas só à primeira vista. O problema do pop das rádios de hoje é exatamente a dificuldade de conviver com outras formas de se fazer música.

“Travelling” parece um álbum antigo. A impressão de que é um álbum do início dos anos 1990 é gritante em quase todas as faixas do álbum. É uma espécie de diário da turnê com, como o seu sub-título traz, “songs from studios, stages, hotel rooms and other strange places”. O álbum reúne material inédito composto pela banda em diferentes pontos do mundo, versões alternativas de outras canções e registros ao vivo. Várias canções possuem estrutura simples, quase todas levadas ao violão, sendo pouco trabalhadas propositalmente para transmitir ao máximo a sensação de se estar viajando. Pode parecer algo problemático e até mesmo descartável, mas o próprio Roxette mostrou como equilibrar todos esses nuances de forma brilhante em “Tourism”, álbum de 1992 com a mesma ideia – e também um dos melhores de sua estável discografia.

Se em 1992 o álbum celebrava o auge do sucesso, Travelling celebra a sobrevivência da banda, que em 2002 foi forçada a encerrar as suas atividades devido a um grave tumor cerebral em Marie. Após a comoção gerada pelo retorno da banda e o lançamento do bom “Charm School” (2011), a banda têm estado em turnê mundial desde então, fazendo show até para 44 mil pessoas em deteminadas praças.

Em “Travelling”, nota-se uma banda mais auto-confiante, mais a vontade. Faz pensar como “Charm School” seria melhor se a banda não estivesse um pouco tímida, ainda se perguntando se haveria lugar para eles. Aqui não há a vontade de agradar ou de soar moderno. É um álbum fiel ao som da banda e dedicado aos fãs – como mostra a terceira imagem desse texto. Talvez seja por isso que ele possui esse ar “antigo”, pois a banda agora sabe exatamente o que fazer em estúdio. O antigo como sinal de confiança.

O álbum abre com uma escolha bem não-convencional, “Me & You & Terry & Julie”. Um início delicado e sussurado que se transforma num refrão barulhento, com base feita de teclados e guitarras. Bem oitentista. Poderia tranquilamente estar me Joyride (1991).

 Há bom número de destaques. “Lover Lover Lover” possui uma levada suave, balada para se tocar no violão ao pôr do sol. “Excuse me sir, do you want me to check on your wife?” possui a melhor melodia vocal do álbum, em uma letra sobre distanciamento conjugal, com certa dose de bom humor que é a marca do duo sueco. “It’s Possible”, single do álbum, um exemplo perfeito do som pop da banda, lembra “Pay The Price”, música de “Have A Nice Day” (1999). Tenho a impressão de que basta um pequeno incentivo nas rádios brasileiras para ela ganhar vida própria.

“Touched By The Hand of God” talvez seja a melhor faixa de “Travelling”. Anteriormente nomeada “Charm School”, chegou a batizar o álbum anterior antes de sair do tracklist final. Não sabemos se essa era a mesma canção do ano passado, mas certamente é a melhor canção do Roxette em muito tempo. Eles estão intimados a tocá-la aqui em Brasília dia 15 de maio.

O álbum, contudo, possui um problema com as versões ao vivo e com a ordem das músicas. O álbum de 1992 mixava o som do público com o início de uma canção de estúdio, gerando ótimo equilíbrio. Aqui, contudo, as passagens são abruptas, cansando grande incômodo. “She’s Got Nothing On (But The Radio)”, gravada do show do Rio ano passado, têm qualidade de bootleg, com aquele chiado característico de uma versão de baixa qualidade. “Stars” e “It Must Have Been Love”, ao contrário, foram mixadas demais, sequer parecem ser versões ao vivo. Uma pena que o equilíbrio impecável de “Tourism” tenha sofrido aqui. O problema das versões ao vivo repercute na ordem, que muda de versões ao vivo barulhentas para baladas delicadas.

Para encerrar com uma dica: “Travelling” foi feito para ser escutado em trânsito, seja dentro do carro, ou com fone de ouvido no ônibus. Escute em trânsito. A minha percepção, após ouví-lo em trânsito, foi outra.

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