Revisitando um Clássico: Paralamas do Sucesso – Selvagem? (1986)

O ano passado marcou o aniversário de 25 anos de dois álbuns fundamentais para compreender o chamado B-Rock. É importante destacar que isso não é pouca coisa, pois dificilmente o cenário musical brasileiro seria o mesmo sem esses dois espetaculares álbuns: “Cabeça Dinossauro”, terceiro álbum dos Titãs… E “Selvagem?”, também terceiro da banda de Brasília (dane-se se ela foi formada no Rio… Pra mim ela será eternamente a banda de Brasília :p), os Paralamas do Sucesso. Para aquele álbum, outro texto será necessário. Esse texto busca explicar o porquê que “Selvagem?” resistiu ao tempo e continua recebendo atenção até hoje.

Muita coisa já foi dita, é verdade. Ano passado a mídia deu uma enorme divulgação ao álbum. João Barone, baterista, deu diversas entrevistas. As comemorações tiveram como clímax 6 noites lotadas em São Paulo, com o álbum sendo executado na íntegra.

“Selvagem?”, contudo, não é o melhor álbum dos Paralamas. Certamente é um grande registro, mas – como a maioria dos grandes discos – perde a força no final (mesmo o Barone já afirmou não considerar esse o melhor trabalho da banda). Seu antecessor, “O Passo do Lui” (1984), certamente é mais equilibrado, e talvez até melhor. O que o faz então ser um dos álbuns mais famosos do rock brasileiro?

A pergunta, à primeira vista, parece esclarecedora em relação ao conceito de álbum “clássico”. Afinal, o que faz de um álbum clássico? Talvez a qualidade seja um elemento importante, mas ela não parece ser essencial… Talvez a compreensão do que seja clássico precise de uma explicação acerca do contexto em que o álbum está inserido.

Antes de “Selvagem?”, o rock brasileiro patinava. O período glorioso da Jovem Guarda e tropicália parece ter dado lugar a uma espécie de vácuo. A ditadura tropeçava, mas ainda fazia sentir a sua mão.

Mão essa que se desvaneceu “oficialmente” com a posse de José Sarney para a presidência. A ausência do perigo real da censura e da opressão encorajou o surgimento de diversas novas vozes, loucas para gritarem o que estava entalado na garganta. O primeiro grande sucesso real veio com o RPM e seu disco, “Revoluções Por Minuto”, de 1985, álbum bastante influenciado pelo contexto internacional. O sucesso do álbum abriu novas portas, deixando as gravadoras mais receptivas àqueles jovens rockeiros. Depois de “Selvagem?” e “Cabeça Dinossauro”, o mercado estourou de vez.

Mas um problema começou a incomodar: como realizar um rock de identidade brasileira? É possível seguir o modelo das bandas “de fora” sem parecer artificial, sem identidade?

É nesse contexto que se torna claro a importância de “Selvagem?”. Até então, o Paralamas havia encontrado um certo equilíbrio entre o rock, digamos, “tradicional” e a influência do reggae e o ska, encontrando bom sucesso com as canções “Óculos”, “Meu Erro”, “Ska” e “Romance Ideal”… A mistura era interessante, mas era preciso avançar ainda mais.

E “Selvagem?” avançou. O riff que abre o álbum, dando início a “Alagados”, causou um choque enorme na crítica e no público, devido à sua afinação pouco convencional. Caminhando entre uma típica música de rock e uma estrutura músical bastante gingada, “Alagados” incorporou com perfeição ritmos percussivos tipicamente brasileiros com a estrutura guitarra – baixo – bateria. A letra é um relato do difícil dia-a-dia da favela da Maré, em que todo o dia “o sol da manhã vem e nos desafia”. A cidade maravilhosa, “de braços abertos como num cartão-postal, com os punhos fechados na vida real, lhes nega oportunidades, mostra a face dura do mal”. Com esses simples versos, os Paralamas havia mostrado como se aproximar da realidade brasileira – relatando as suas condições mais extremas. Até hoje “Alagados” é uma das canções mais celebradas nos shows da banda.

“Teerã” alterna entre preocupação com o que acontece na capital do Irã e uma genuína visão sobre a vida urbana brasileira, em que “essas crianças vão sempre estar pedindo trocados pros vidros fechados”. Em “A Novidade” – uma das letras mais brilhantes do rock brasileiro, na minha visão – temos um dos refrões mais conhecidos do rock nacional – “Ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual, ooh ooh ooh ooh… De um lado é este carnaval, do outro a fome é total”.

“Selvagem?” não possui apenas seriedade. “Melô do Marinheiro” é daquelas canções que só podem ter sido feitas entre amigos em um momento descontraído. Aqui, assim como em todas as faixas, tem destaque a atuação segura e rítmica de João Barone, sempre enchendo a canção de gingados. Aliás, João Barone é provavelmente o melhor instrumentista que o país possui.

A canção “Selvagem” abre com um dos riffs mais poderosos do excelente guitarrista Herbert Vianna. A letra contrasta a polícia e o governo, com seus abusos de autoridade, com os supostos “desordeiros”, moradores de rua e meninos que pedem nos sinais. Os negros mostram “suas costas marcadas, as mãos calejadas”. Quer problemática mais brasileira do que as reminiscências da escravidão?

Há muito a se dizer sobre as nuâncias e complexidades do disco. E também de suas falhas, que existem e são ainda mais latentes nos dias de hoje. Ouvindo-o em 2012, nota-se a limitação dos recursos das gravadoras brasileiras na época. Contudo, “Selvagem?” é um dos poucos álbuns que me fazem pensar após o seu final “eu preciso montar uma banda”. E existe melhor pensamento que um clássico pode nos deixar?

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