Bruce Springsteen – Wrecking Ball (2012)

Bruce Springsteen provavelmente é o artista que lota casas de shows mundo afora menos conhecido no Brasil. Talvez pela associação patriótica com os Estados Unidos, gerando na nossa praça uma certa repulsa, uma certa sensação de distância e estranhamento. Uma olhada atenta na sua obra, contudo, desvanece a atitude patriótica em prol de contornos universais. Bruce sempre teve em suas letras relatos sobre trabalhadores de lava-jato, famílias que sofrem os efeitos da crise econômica no estômago, casais românticos que decidem fugir… Seu álbum de 2009, “Working On A Dream”, possui uma canção chamada “Queen of the Supermarket”. Assim, Bruce é um dos artistas mais amados nos subúrbios e bairros pobres americanos, com sua figura ganhando contornos quase messiânicos no auge da sua popularidade, em 1984 com o excelente álbum “Born In The USA”.

O álbum vem na embalagem formato digipack, aquele papel grosso. O problema de álbuns nesse formato é que, para retirar o disco da dobra onde ele se encontra guardado (vide a figura ao lado), é necessário atravessá-lo perto de outra dobra. Qualquer descuido arranha o disco. Prefiro bem mais as embalagens digipacks com um suporte de plástico, que evitam esse aborrecimento.

Em “Wrecking Ball”, encontramos um Bruce com 63 anos, referindo-se ao passado com certa frequência e também à mortalidade. Certamente consequência da morte de um de seus melhores amigos, o saxofonista Clarence Clemons no ano passado. O álbum possui leves tons eletrônicos, melodias que se aproximam ao folk, e refrões que seguem a cartilha da música pop, com repetições ou ênfases de palavras ou expressões. O som da sua banda de apoio, a “E Street Band”, possui flertes com o country e usam recursos como palmas, clarinetas e solos de sax, o que pode ser um ponto refrescante para ouvidos tão bombardeados pelos sintetizadores das músicas radiofônicas de hoje. Contudo, não há aqui a variedade do ótimo “The Rising” – de 2002. Todas as cancões seguem uma linha melódica próxima.

A canção que abre o álbum, “We Take Care of Our Own” – certamente incluída pelo seu apelo comercial -, dita o tom temático do resto do álbum: um Bruce amargo, furioso com as reminiscências de uma crise econômica que, na sua visão, possui claros culpados. “Where’s the work that’ll set my hands, my soul free?” ele pergunta aqui. “They brought death to my hometown”, acusa em “Death to my hometown”. Em “Jack of All Trades”,  ele ameaça – “if i had me a gun, i’d find the bastards and shoot’em on sight”. Em todo o álbum, Bruce exerce seu papel de porta-voz das classes C, D e E ao exigir explicações para uma crise que, em sua visão, só pesa em quem não possui um bolso recheado.

“Jack of All Trades” e “This Depression” tiveram seus solos gravados por Tom Morello, membro do Rage Against the Machine e ex-Audioslave. Embora não seja fã do seu estilo pouco convencional de tocar, achei seus solos inspiradíssimos, realçando o toque de melancolia das duas canções.

Em “This Depression”, há uma associação entre a situação de seu país e do seu estado de espírito, como um cidadão que sofre com o que acontece ao seu redor. Um homem cinzento em tempos cinzentos. “You’ve Got It”, uma balada simples de amor, talvez seja a canção mais descartável (curiosamente, é uma das minhas preferidas… Gosto de canções descartáveis). “Rocky Ground” talvez seja a faixa mais “pedreira” do disco, pelo seu caráter soturno e melancólico. Embora seja a canção de mais ousadia do disco (é a primeira canção em toda a carreira de Bruce a ter um trecho de hip hop), é inevitável pensar nela como um ponto baixo.

A melhor faixa do disco é a que o batiza. Wrecking Ball começa com uma guitarra nervosa, sendo acompanhada aos poucos por outros instrumentos até explodir lá na frente.  Novamente temos um Bruce desafiador, quase que chamando para um duelo quem destrói suas memórias, e também o bem-estar de seu país: “come on and take your best shot, let me see what you got, bring on your wrecking ball”.

“Land of Hope And Dreams”, tocada pelo mesmo nos shows desde 1999, segue o mesmo estilo, embora peque pela repetição excessiva do refrão e da seção instrumental a partir da segunda metade da canção. Ela dá passagem a “We Are Alive”, uma suave balada homenageando aqueles que se foram. Um provável brinde à memória de Clemons, que  ganha uma bonita homenagem no belo encarte do álbum.

Embora não busque inovar ou experimentar outros caminhos, Wrecking Ball é um consistente retrato de uma gigantesca carreira que, pelo número de discos, pode desestimular muita gente a conhecer o catálogo do cara. Wrecking Ball têm agradado os fãs mais antigos, e certamente tem potencial para trazer mais seguidores.

Roberto Medina, o cara do Rock In Rio, afirmou no ano passado que gostaria de trazê-lo para a edição de 2013. Tomara que consiga.

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